sexta-feira, 6 de abril de 2012

XII – A Aposta


Léo voltou para Desiderata no dia seguinte, e a última imagem que vislumbrei de seu rosto havia ficado gravada na minha retina. “Não venha mais.” Foi a frase mais difícil que já pronunciei em toda a minha vida. Ecoava no meu cérebro, corria por meus neurônios e alfinetava minhas entranhas. “Não venha, Léo. Não posso suportar a ideia de ser causador dessa agonia, menos ainda de me tornar o responsável pela sua infelicidade.” Não era novidade que eu soubesse não estar sendo fácil para ela lidar com a nossa situação. Mas ouvi-la clamar por ajuda me consternou sobremaneira. 




Precisávamos aceitar que há coisas que não podem ser e tomar aquela decisão não foi menos sacrificante para mim. Por conta disso, levei Ariel de volta para a casa de sua mãe um pouco antes do início das aulas. A ausência da baixinha não melhorou minha rotina em nada, no entanto não seria justo dividir meu desânimo com ela. De qualquer forma, eu continuava a visitá-la constantemente.




Falando em visitas, as de Nina tornaram-se mais frequentes. E posso afirmar sem medo de exagero ser sua presença sempre tão alegre a não me deixar sucumbir. Era o início uma deliciosa amizade que trouxe com ela uma atração latente, e cada vez mais intensa. Seria ótimo investir naquela relação se... ela não tivesse que partir. Sentia que a mesma aflição a espreitava, embora Nina se esforçasse em disfarçar.




Pensei estarmos levando bem aquela situação até ali. Mas então ela sumiu por alguns dias, e quando entrou em contato novamente, encontrei melancolia em sua voz ao telefone, ainda que não pudesse ver seu rosto para ter certeza de que algo parecia estar fora de lugar.
– Pode vir aqui? – pediu.




Atendi seu pedido e fui até a casa de Trevor encontrá-lá. Toquei o interfone que ela mesma atendeu. Subi as escadas ainda intrigado, encontrei a porta da sala aberta e entrei. Nina estava virada de costas para a entrada, apoiada no braço do sofá e mantinha o rosto voltado para o chão. A cena me fez perceber que estávamos sozinhos. Aquela conversa seria muito particular.




– Nina? Está tudo bem?
Ela se virou. Seus olhos possuíam um brilho triste e um leve rubor de quem havia chorado.
– Não muito... 
– Eu posso ajudar?
– Eu não sei ao certo, mas foi por isso que chamei você aqui...




– Então? – Perguntei apenas para ter certeza. No fundo eu tinha uma ideia do que estava por vir.
– Yuri, sabe, eu sempre fui leal na minha vida. Tanto aos meus princípios, quanto aos meus amigos. Acontece que não tenho agido com lealdade esses últimos dias, nem comigo, nem com você.
– Ah, Nina...




– Deixa eu terminar... – ela suspirou e eu me calei. – Eu me apaixonei, Yuri. Bem previsível não é? Quer dizer, as mulheres devem te falar isso o tempo o todo, é tão fácil se apaixonar por você!
Eu sorri justamente por discordar. Ela continuou. – Venho tentando sufocar isso dentro de mim desde que me dei conta, mas... vejo como você me olha, como fala comigo, e quando você me toca, eu... perco o chão. Não é justo que eu tenha que matar o meu sentimento, apenas por medo de uma irremediável separação, é?




– Não, não é, Nina... Mas só você pode saber se é capaz de passar por isso sem se machucar...
– E você? Não tem medo? Ou eu me enganei? – Ela mirou meus olhos buscando uma resposta não pronunciada. – Oh, meu Deus, eu me enganei! – deu um passo atrás e levou a mão à boca, chocada consigo mesma. – Desculpe! Você é só um cara gentil e educado, onde eu estava com a cabeça?! Me desculpe!




Eu a puxei e a abracei.
– Ei, espera! Calma... Você é incrível, Nina. É amável, inteligente, criativa, divertida... Uma mulher belíssima... Seus sentidos não te traíram de forma alguma... Eu me sinto muito atraído por você, e se não me permiti ir além de onde estamos, foi justamente por temer o mesmo que você.




Temia, de fato. Porém, mais por causa dela. Eu já estava calejado. Uma dor a mais ou a menos não faria diferença, mas Nina parecia tão frágil! Ela levantou o rosto para me encarar e havia uma lágrima perdida que escorreu pelas maçãs sardentas daquele rosto delicado e morreu no canto de sua boca.
– Eu acho estou disposta a pagar o preço... – conclui decida, por fim. – Não quero voltar para Paris com a sensação de que perdi sem ter apostado.




Segurei seu queixo e levei meu rosto até o dela, deslizando meus lábios sobre sua boca. Nina suspirou novamente e se afastou apenas o suficiente para me encarar com os olhos ainda marejados. Então voltou a se aproximar e me beijou com veemência. Seus lábios de cetim em harmonia com sua língua de sabor frutado desenharam uma coreografia deliciosa que dançou em minha boca e me inundou de desejo.




Quem me conhece sabe que eu raramente ajo de impulso. Portanto, foi quase um choque me encontrar completamente exaurido e nu no chão da sala de estar do meu melhor amigo, enroscado ao corpo quente e trêmulo de sua prima. O único som audível vinha de nossa respiração ofegante.




Permanecemos assim por longos minutos, agora Nina brincava na minha barriga, desenhando círculos com seus dedos que me faziam sentir cócegas.
– Qual o problema das mulheres daqui? Quero dizer... É inconcebível que um cara como você esteja sozinho!
– O problema não está nelas, acredite...




– Pare de me assustar! Você não é gay, é? Aquele tipo que não tem coragem de assumir e vez ou outra aparece acompanhado? – perguntou com a intimidade de amigos de longa data. 
– Não... – achei graça em sua espontaneidade, mas respondi com seriedade, uma vez que precisava ser sincero. – Eu nunca me sinto completamente envolvido em uma relação. Sempre acho que estou usando a mulher ao meu lado e acabo... pulando fora.




– Ah... – murmurou e virou-se para o outro lado.
Por aquela reação era óbvio que Nina não esperava ouvir nada parecido.
– Decepcionada?
– Não. Curiosa, mas ao mesmo tempo... com medo de perguntar...
– Eu não mentiria pra você.
– Eu sei... E talvez seja esse o motivo do meu medo. Depois... Se eu estiver preparada. Por hora... que tal comermos alguma coisa?




Perguntei se ela gostaria de sair para jantar. Nina me beijou, mas declinou alegando que havia muita comida na geladeira e aquilo tudo acabaria indo pro lixo, uma vez que Trevor mal parava em casa. Concluiu afirmando categoricamente que prepararia o melhor assado que eu comeria em minha vida.




Ela não fez questão nenhuma de vestir qualquer peça de roupa enquanto preparava a comida. Apreciar sua beleza em movimento na cozinha me deixou excitado novamente e precisei me esforçar para não atrapalhá-la em sua tarefa. Eu tinha certeza que Nina percebia minha admiração, pelo seu semblante divertido.




– E então, o que achou? – perguntou quando terminamos de comer. Ela havia se coberto com uma peça de lingerie para sentar-se à mesa e eu não conseguia concluir de qual jeito a achava mais bonita.
– É bom... – respondi fingindo indiferença. Sem sombra de dúvidas, foi o melhor assado que eu já havia provado, mas fiquei tentado em provocá-la.




– Bom?! – exclamou contrariada, ainda que consciente da minha mentira. – Você vai ver o que é bom!
Ela pegou um punhado do que havia sobrado em seu prato e atirou em mim, como uma criança desejosa de fazer bagunça. Eu revidei e ficamos completamente emporcalhados de resto de comida.




Eu me aproximei e puxei-a em um abraço.
– Nunca vou conseguir tirar todos esses champignons do meu cabelo... – resmungou chorosa...
– Foi você quem começou... – e a beijei.




Tomamos banho juntos e fizemos amor novamente debaixo da forte ducha de água quente do chuveiro. 
– Você precisa voltar pra casa hoje? – era mais um pedido do que uma pergunta e pela primeira vez em muito tempo, eu não tive saudades da minha cama.
– Nã-hã...