sexta-feira, 1 de junho de 2012
XIX – Efeitos (parte II)
O meu discurso era honesto, só que eu não sou tão altruísta e desejava que Léo voltasse para mim. Então o feriado terminou diminuindo minhas esperanças. Tomei um banho mais demorado que o usual e deixei a água quente arder em meus ombros. “Não era para ser”, repetia para mim mesmo, tentando me convencer.
Eu só teria turmas no período da tarde, mas me aprontei para ir cedo à UFEB. Não queria ficar em casa amarrado àquela espera angustiante. Porém, quando desci as escadas, vislumbrei pela vidraça a imagem de Leandra em frente à entrada. O que ela fazia ali, parada? Porque não havia tocado a campainha?
Abri a porta e ela se atirou em meu colo. As batidas aceleradas e seu coração causavam-lhe uma leve tremedeira e deixavam sua respiração profunda.
– O que houve?
Ela não me respondeu. Apenas se esticou e me beijou. Eu não insisti em saber, não ali naquela hora, a felicidade de senti-la de volta em meus braços, enevoou momentaneamente qualquer outro pensamento ou preocupação.
É verdade que não estive com muitas mulheres em minha vida, e nunca havia conhecido alguma com uma libido como a de Leandra. Ela exala sensualidade, um simples beijo tornou-se um convite irrecusável. Desta segunda vez, fizemos amor com menos urgência, menos ansiedade. Entretanto com mais intensidade e mais prazer, levando-me acreditar que cada novo encontro de nossos corpos seria como uma progressão aritmética.
Algumas horas depois nós continuávamos abraçados e eu ainda sentia uma certa inquietude em Léo. O temor em perguntar e acabar recebendo uma resposta indesejável era enorme, mas não chegava a ser maior que a minha preocupação.
– Léo... – chamei e esperei por um sinal de que estivesse acordada. Ela se agitou em meu ombro e eu continuei. – Acha que está pronta pra conversar agora?
– Eu não sei...
– Porque você não tenta?
– Por que eu nunca estive numa situação destas, não estou sabendo como agir. As coisas ainda estão muito confusas e não quero que me julgue mal...
– Você sabe que eu jamais faria isso...
Léo respirou fundo antes de começar.
– Nós terminamos. Eu e Pedro... Dissemos muitas coisas um ao outro. Algumas delas merecidas, outras nem tanto... E não é o caso de repeti-las pra você. Consegue entender?
– Sim, eu consigo.
Leandra baixou a cabeça e fechou os olhos, evitando me encarar.
– Mas esse é pior momento da vida dele, Yuri. Não posso abandoná-lo, não quero abandoná-lo... Apesar de ele estar decidido a não me querer por perto... – completou com tristeza. – E eu não estou tirando a razão dele em agir assim, nem poderia, mas...
– Ele está... abalado com tudo que aconteceu. – forcei-me a dizer o que acreditava ser verdade. – Ele esteve aqui, Léo. O Pedro... Ele viu você indo embora...
– Ah... – soluçou e se ajeitou ao meu lado. – Agora entendo porque, apesar da revolta, ele não expressou reação quando lhe contei sobre... a gente. Ele já sabia... Não é que eu queira que ele compreenda, mas ele podia ao menos ter me dito... – ela fez uma pausa, fungando. – O que aconteceu?
– Só uma conversa. – procurei não dramatizar, embora tivesse sido mais uma discussão. – Talvez Pedro não tenha te contado por não querer que você tirasse conclusões erradas. Ele pode ter ficado com raiva, Léo. Muita raiva e rancor. Mas tenho certeza que ele sabe que foi duro com você, e que tem sua parcela de culpa, pelo modo como te tratou, pela forma de enxergar a relação e de enxergar você...
– Porque está me dizendo isso? – indagou tão surpresa quanto decepcionada. – Acha que eu devia voltar pra casa e esperar que ele me perdoe?
– Não... – disse acariciando seu rosto. – Não quero que espere nada, não acho que você deve desculpas, nem sou tão compassivo quanto você acredita. Eu te amo, Léo. Casaria com você agora se você quisesse... Desejei tanto viver isso que às vezes tenho medo de descobrir ser um sonho. Mas eu compreendo o que se passa aí dentro, muito mais do que eu mesmo gostaria.
– Eu queria tanto não ser tão passional! Mas tudo dentro de mim é tão intenso, que muitas vezes nem sei como consigo respirar. – disse virando-se para sair da cama. – Eu invejo seu autocontrole.
– Quem disse que eu tenho autocontrole?
– Eu!
– É?! – eu ri. – Tive muito, quatro dias atrás ao te trazer da delegacia... Ei, aonde você vai?
– Tomar um banho... E é melhor você fazer o mesmo, não tem que trabalhar?
– Ah, droga! Eu não quero... – joguei-me na cama, contrariado.
– Heim? Eu escutei direito? Yuri Tedesco não quer dar aulas? O mundo vai acabar!
– A culpa é sua! Antes eu não tinha motivos para ficar na cama...
– Estarei aqui quando você voltar. Eu juro.
Ela estava, conforme prometera. Encontrei-a em meio a uma enorme bagunça na minha cozinha.
– Eu tava tentando fazer o jantar... Mas nunca fui boa nisso... – disse frustrada.
– Tenho certeza que vou adorar... O que é?
– Era pra ser uma lasanha. Não acho que funcionou...
– Bem... Vamos experimentar então...
Eu servi o vinho e Léo serviu a comida, receosa.
– Não se sinta obrigado a comer... Pode dizer se estiver ruim. – avisou, e esperou que eu experimentasse antes dela. Dei a primeira garfada para descobrir que a massa não estava totalmente cozida e a carne do molho bolonhesa estava salgada demais.
– Delicioso! – menti descaradamente e com a boca cheia. Não tive coragem de dizer a verdade depois de todo aquele... bem... esforço.
– Você está falando sério? – desconfiou.
– Arram!
Léo pegou seu talher e levou um pedaço a boca, cuspindo-o logo em seguida. – Seu mentiroso! Isso está incomível! Argh!
– Você está exagerando.
– Cala a boca e pede uma pizza, vai...
Depois de comermos e darmos uma disfarçada no ambiente , perguntei a ela o que gostaria de fazer.
– Posso passar essa noite aqui com você?
– É claro que pode. – por mim, ela poderia passar o resto da vida se assim desejasse e eu não precisaria de uma justificativa. Contudo, ela quis explicar.
– Está difícil ficar lá, na casa do papai. Apesar de ele e Dora não tocarem no assunto, eu sei que anseiam por alguma explicação e eu não tenho pra dar! Se nem a própria Dora, que é a mãe, consegue entender a postura fechada e silenciosa de Pedro...
Não fosse a atitude dele, talvez Leandra nunca tivesse saído de casa. Era uma hipótese tão clara que praticamente esbofeteava minha cara. Se ele havia desistido, eu não, e decidi depositar minhas esperanças no momento em que seria tarde demais para os dois.
– Ainda tem aquele bando de jornalista na porta, sedentos por uma entrevista ou uma foto...
– Está tudo bem, Léo. Você quer ir subindo? Só preciso checar alguns e-mails e já te encontro lá em cima.
– Vou tomar um banho enquanto isso, tá bom?
Acabei levando mais tempo do que imaginava, mas quando entrei no quarto, notei que Léo ainda estava no banheiro. O aroma floral que escapava pela porta entreaberta inundava o ambiente com uma sensação de frescor. Fui atraído naquela direção, mas ela saiu antes que eu chegasse até lá. Vestia um baby doll de seda semitransparente que ressaltava as curvas de seu corpo e quase revelava os detalhes de sua calcinha. Flores de jasmim enfeitavam seus cabelos longos e loiros.
O conjunto lhe dava o aspecto de um anjo. Paralisei diante daquela cena, temendo novamente que tudo desaparecesse como bruma. Ao mesmo tempo, fantasiei como seria tê-la para sempre ao meu lado.
– Eu catei no seu jardim... – disse insegura, diante da minha passividade. – Estavam muito cheirosas, mas começando a murchar...
Só então entendi que ela se referia às flores em seu cabelo.
– Você está... está... – gaguejei, ao perceber que não havia sido inventado um adjetivo que eu pudesse usar.
Talvez “sublime”, mas também não era isso.
As perspectivas me inundavam tanto de esperanças vãs quanto de receios tolos. O pior deles – de que um dia, por qualquer motivo alheio a minha vontade, a memória daqueles dias se perdesse –, me incitou a ideia de guardá-las em papel e tinta. Assim também, caso fossem mais breves do que eu aspirava, eu poderia relê-las como meu romance predileto.
Eu ainda estava mudo e Léo sorriu compreensiva, antes de me beijar.
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