O trajeto até a casa do Doutor Olívio se deu no mais absoluto silêncio. Menos mal que fosse um caminho curto, tornando aquela tortura muito breve. Preparava-me para inspirar profundamente assim que Léo saísse do carro, mas ela não se mexeu quando estacionei.
– Lucas, querido, vai na frente e pede pra Maria ir arrumando seu almoço... Só vou me despedir do Yuri e já entro...
O menino desceu subserviente. Eu estava congelado.
– Me desculpe. Me desculpe de verdade, Yuri... Protagonizei uma cena patética! Eu fui tão estúpida!
– Não precisa falar assim, Léo... Esquece, deixa pra lá... O Lucas tá bem, deu tudo certo. É o que importa.
– É, não é? – percebi que ela tentava convencer a si mesma. Mas estava nitidamente falhando em sua missão.
Eu me calei. Não queria dizer nada, tinha medo de qualquer palavra que pudesse sair da minha boca.
– Porque é tão difícil, merda?! – desabafou. – Porque eu fiquei desnorteada quando te vi beijando aquela mulher a ponto de perder o Lucas?! O meu irmão! Eu amo o Pedro, Yuri. Você consegue acreditar em mim? Eu sempre amei... Sempre! Então porque eu sinto tanta vontade de estar com você?! Porque é que eu não estou radiante de felicidade por você ter encontrado uma pessoa tão legal como a Nina?! Eu sempre desejei isso! Que você se apaixonasse por alguém... Ou pelo menos eu achava que desejava...
– Léo, eu... Eu acredito em você, mas também não sei te responder isso...
– Você a ama? A Nina?
– Eu ainda não sei se eu a amo... Mas eu sei que gostaria de amá-la.
Léo abaixou a cabeça.
– Eu devo ser algum tipo de aberração. Tenho o melhor namorado do mundo. Um cara que é capaz de morrer e matar por mim. Realiza meus sonhos e adivinha minhas vontades... Eu não o mereço.
– Não se mede amor assim. Não é uma questão de merecimento, Léo... Além do mais... O Pedro sabe que você o ama. De nenhuma outra forma acredito que ele conseguiria sustentar essa situação.
– Você acha mesmo? Que ele acredita no meu amor?
– São cinco anos, Léo. Cinco. Perdoe minha falta de modéstia, mas se não é o seu amor pelo Pedro, o que mais te impediria de estar comigo? Juntos, eu e você? – julguei que se era para lavar a roupa suja, que fosse até a íntima.
– Nada...
– Então... Você não acha que ele já teve tempo suficiente pra perceber isso?
– Só que a percepção não impede a mágoa, não é? Eu estou machucando. A ele, a você e a mim mesma.
– Entende agora porque pedi que não viesse mais?
Depois que deixei Léo, voltei ansioso para a casa de Trevor. Nunca uma atitude da Nina havia me deixado tão irritado.
– Por que você fez isso? – exigi uma explicação assim que pisei na cozinha. Ela parou o quer que estivesse fazendo e se virou para mim.
– Isso o quê, Yuri? Sugerir uma carona para uma amiga?
– Não simplifique as coisas nesse nível. Você já conhece a história, qual era seu objetivo, Nina?
– Pelo menos conversaram?
– Você não tinha o direito de decidir por mim.
Nina ponderou, soprando ar.
– Tem razão, Yuri, me desculpa. Estou tentando consertar algo que não me diz respeito, não é? – declarou e eu me vi em seu reflexo.
Afinal, não era assim que eu mesmo que eu costumo agir com todos ao me redor?
– Ah, tudo bem! – relevei, considerando minha rápida autoanálise e o escasso tempo que teríamos pela frente.
– Eu não vou mais me meter, eu prometo. Apenas entenda, meu bem... As pendências que temos nessa vida não se resolvem só porque fingimos ignorá-las.
– Nina, escute... Tudo o que eu quero é fazer com que seus poucos dias em Belladonna sejam perfeitos. Depois eu juro que penso na minha vida e no que fazer com meus problemas. Por favor, me deixe tentar...
– Eu não faço questão que sejam perfeitos. Nem dá, porque eles só o seriam se eu pudesse te sentir por inteiro, e isso não vão acontecer. Também seria muito egoísmo de minha parte, considerando que em breve eu não estarei aqui para partilhá-los com você.
Eu tentei. É tudo que posso dizer. Esforcei-me ao máximo para me doar por completo, e se eu não consegui, creio ter chegado muito perto. Tive certeza disso no aeroporto, enquanto nos despedíamos.
– Prometi a mim mesma que não choraria hoje, Yuri. E não vou. Não me lembro de ter sido mais feliz do que nos últimos dias, você não merece me ver triste. Prometa pra mim que ficará bem?
– Eu vou ficar. – respondi sorrindo. Eu também não sentia vontade de chorar embora a dor da saudade já estivesse esmagando meu coração. – Eu juro.
– E a hora que quiser... você sabe...
Não deixei que ela falasse mais. Eu queria beijá-la, abraçá-la e foi o que fiz. Porém, sufoquei o desejo desesperado de sequestrá-la dali, impedi-la de pegar o avião e guardá-la para mim. Também calei um pedido para que ficasse, pois sabia o quanto seria duro para ela ter que me negar.
Ao nosso lado, estático, Trevor assistia a tudo estranhamente comportado. Sem caretas, gestos ou piadas. Ela deu um beijo de despedida no primo, sorriu para mim e sumiu pelo portão de embarque. Eu procurei acreditar que nossa história não terminaria ali.
Como de hábito, mergulhei de cabeça em meu trabalho na UFEB e no Pôr do Sol. E o tempo que tinha para respirar, procurava fazê-lo perto de Ariel. Adormeci em seu colo algumas vezes, ao contrário do que naturalmente deveria ser. Ariel andava compreensiva comigo, perdoando meu cansaço e minha eventual ausência. Isso nem sempre fazia com que eu me sentisse melhor.
– Sente saudades da Nina né, papai? – minha filha perguntou e assenti com a cabeça. – Eu também sinto... Acha que ela demora a voltar?
– Espero que não, baixinha...
“Espero que não...” – fez minha voz, num eco inaudível.
– E da Léo? – questionou em seguida, me deixando sem palavras. – Não sente saudades da Léo?
Não é que eu não sentisse. Mas encontrava-me tão apaixonado pela Nina, que foram raros e curtos os momentos em que a figura de Léo ocupou meus pensamentos. Para falar a verdade, aconteceram apenas naqueles em que Ariel mencionou seu nome ao me contar sobre alguns de seus programas juntas, estava satisfeito que as duas não tivessem perdido o contato. Ajudava o fato que não mais a vira desde aquela conversa no meu carro, e procurei acreditar que Léo estivesse muito mais feliz sem a minha presença a lhe perturbar.
Ariel aceitou meu silêncio.
– A Léo sente falta de você. Ela não falou, mas eu sei que ela sente. Não é mesma coisa de quando éramos nós três. Mas não estou reclamando. Acho que entendo agora...
Eu estava um tanto perplexo. Como é que aquele projeto de gente poderia entender?
– Só quero que você seja feliz, papai. Como a mamãe é com o John... Eu vou gostar de ter uma casa de férias em Paris.
Quanto a Nina, nos falávamos sempre que possível, por telefone ou por Skype, o que era sempre mais divertido. Ela adorava criar performances na webcam. Não matava por completo a saudade, uma vez que sentia falta do seu toque, beijos e carícias. No entanto, preenchia um pouco do vazio que sua partida havia deixado. Era o que tínhamos.
Apesar do oceano que nos separava, estávamos indo bem assim e até fizemos planos, conseguindo finalmente marcar uma data para nos encontrarmos. Nem Paris, nem Belladonna. Nina tinha um leilão em Florença que coincidia com um feriado religioso – destes em que uma sexta providencial é considerada ponto facultativo. Não demoraria muito, estaríamos um nos braços do outro mais uma vez e pensei que controlar a ansiedade fosse o maior dos meus desafios. Mas eu estava enganado.
















