– Olha, papai! É a Léo! Ela chegou! Ela chegou! – Ariel era só euforia. Como ela podia ser tão apegada a uma pessoa que via praticamente duas vezes por ano? Então lembrei que havia sido assim desde sempre.
Observava pelas paredes e porta de vidro, enquanto minha filha a abria e se jogava em cima da visita.
– Léo! – Exclamou num aperto ainda maior. – Eu estava com tanta saudade!
– Ei! O que houve com o “tia”, antes de Léo?
– Ela acha que já é muito grandinha pra chamar os outros de “tio”, a não ser que sejam os verdadeiros parentes... – Respondi.
– Ah... Oi, Yuri. Não tinha visto você aí. Tudo bem?
O mesmo sorriso constrangido. Também era assim desde sempre.
Fazia exatamente cinco anos desde que minha prima Nicole havia enviado um sms para o meu celular com o endereço de uma página pessoal do Facebook. Era o perfil de uma garota loira incrivelmente atraente, e que possuía a cor de olhos mais fascinante que já vi.
Num primeiro momento achei que Nick tivesse perdido o juízo de vez – minha família, apesar de tradicionalíssima possuía uma péssima fama de desajustada. Embora eu me sentisse hóspede em minha própria casa, eu ainda estava casado. Conhecendo tão bem a mim, não podia acreditar que minha prima estivesse insinuando que um caso extraconjugal me traria algum benefício.
No entanto, reparando um pouco mais nas informações, vi que ela tinha um namorado e ambos estudavam na Universidade Federal de Enseada Belladonna. Então era isso. Léo Salvatore seria minha aluna. Pensei no que levaria um pai a dar um nome masculino para sua filha. E mesmo ali por aquelas fotos ela exalava tanta feminilidade! Somente quando falei com Nicole novamente soube que seu verdadeiro nome era Leandra. Um nome forte, imponente, que me agradava muito mais que o apelido. Apenas em respeito a sua vontade, sempre a tratei por Léo.
– Tudo... Quer entrar? Aceita uma água, um refrigerante ou um expresso?
Ariel respondeu por ela:
– Não! Vamos nos atrasar!
– As entradas estão compradas, Ariel! Temos tempo... – Ela respondeu.
Minha filha fez uma careta e eu sorri.
– Está ansiosa demais, Ariel...
Fomos até a cozinha, e enquanto eu preparava os cafés, Ariel começou a tagarelar.
– Papai está namorando, sabia Léo?
Léo esticou um cacho de seu cabelo com os dedos, num trejeito sem graça.
– Não... Não sabia...
– É a Lis... Ela trabalha lá no Pôr do Sol, com o papai... Eu te contei que tô ajudando o papai lá também, como voluntária?
– Lis e eu somos bons amigos, Ariel. Já disse isso pra você. – Respondi antes de dar vazão aos devaneios daquela pré pré pré adolescente.
– Quanto tempo até ficar pronto? – Perguntou impaciente.
– Poucos minutos.
– Afe! – Ariel bufou. – Vou subir pra assistir o final de “glee”. Vejo vocês em “poucos minutos”...
Léo riu com a atitude da baixinha.
– Que figurinha! – Comentou.
– E nem chegou na fase crítica... Imagina!
– Ah, Yuri, vai... Você é o maior paizão! Vai tirar de letra! – O sorriso ainda vivo em sua expressão. Tão mais descontraído quando se tratava de Ariel.
Eu servi as xícaras e Léo perguntou sem jeito:
– Então... Como é a Lis?
– Atenciosa, solícita... Simpática até! Uma ótima voluntária...
– Só isso? – Ela levantou uma das sobrancelhas, me fazendo achar graça.
– Só...
Eu gostaria que tivesse dado certo com a Lis. Desde que me separei oficialmente da Sônia, tive pouquíssimos relacionamentos. Todos muito breves. A verdade é que por mais que eu tentasse evitar e ainda que eu tivesse a distância a esse favor, eu continuava desejando a mulher que estava ali na minha frente. E a certeza de que desperdicei minhas chances me assola o coração.
– Ei, tudo bem se Ariel dormir comigo na casa do papai? Estou com medo de terminar muito tarde... Prometo que trago ela pela manhã...
– Claro, Léo... Sem problemas. Tenho certeza que ela vai adorar!
– É, mas sei que seu tempo com ela é curto... Porque não quis ir com a gente para o show?
Tomei um gole do café que desceu queimando minha garganta.
– Não é bem meu estilo de música... – Não era essa a verdadeira razão, é claro. Eu levaria Ariel se ela tivesse me pedido.
– Também não é o meu. – Léo rebateu simplesmente, e eu achei que ela tinha adivinhado meus motivos.
– Já acabou “glee”, e já se passaram poucos minutos, podemos ir agora? – Ariel surgiu impaciente na cozinha, no momento que Léo e eu nos levantávamos.
– Vamos, garota! Já vi que hoje vai ser uma noite agitada! Ah! Seu pai deixou você dormir na minha casa!
Ela então se empolgou tanto ao falar que chegou a beirar a histeria.
– Sleep Over Pink!
– Jura?! – Exclamou Ariel surpresa e levando as mãos à boca aberta.
Léo assentiu com um meneio:
– Arram!
Minha filha deu um pulo em meu pescoço e eu me abaixei para recebê-la. A alegria estampada em seu rosto era o suficiente pra mim.
– Obrigada, papai!!! Te amo! – E completou com um beijo estalado em minha bochecha.
– De nada, baixinha! Comporte-se!
– Não me chama assim! Não sou mais baixinha! – Reclamou entre dentes, no meio de uma careta.
– Eu acho tão bonitinho...
– Ótimo, Léo! Ele que chame você, então... Afinal você é baixinha mesmo!
Léo achou graça.
– Sua abusadinha! Vam’bora, antes que eu desista! – Ela piscou para mim antes de sair, sem nenhuma segunda intenção. Mesmo assim isso não impediu que meu coração desse um soluço.
A culpa era toda minha. Depois de me passar a página pessoal de Léo, Nicole fez questão de conversar sobre sua melhor amiga. Sua intenção, creio eu, era que eu pudesse ajudá-la a se descobrir. Enxergava o potencial de Léo, mas não a achava capaz de encontrá-lo sozinha. Acreditava que sua amiga estava perdida demais na teia de proteção criada pelo pai e mantida pelo irmão adotivo. Fiquei fascinado por aquela história, era outro problema para me ocupar, mais uma desculpa para negligenciar os meus próprios.
No entanto, posso me orgulhar de meu êxito. Léo havia realmente se encontrado e junto, descobriu em seu irmão de criação, um companheiro, já que há alguns anos compartilhavam o mesmo lar e dividiam a mesma cama em outra cidade, outro estado. Eu apenas deveria ter previsto que, dadas as circunstâncias, seria muito fácil eu me apaixonar.



















