sábado, 17 de novembro de 2012

XXIV – De Última Hora (Parte V)



Léo foi mais uma vez embora. Sem adeus, sem me dizer o que faria, sem prazo para volta. Eu me senti sem chão. Alguns dias se passaram, o réveillon se aproximava e ela não atendia minhas ligações. Ao mesmo tempo, eu não me sentia no direito de bater na porta de seu apartamento, tampouco ousava ligar para a casa de doutor Olívio atrás de notícias.




Não queria ser pessimista, mas era certo que Léo ainda amava Pedro, na verdade mesmo que decidisse viver comigo pra sempre, jamais deixaria de amá-lo. Acho que sempre estive preparado para perdê-la e talvez tenha sido esse o meu grande erro. Talvez Léo enxergasse isso como falta de amor, ou insensibilidade, até mesmo covardia. Ela estaria muito equivocada. Não existem dúvidas de que a preferia ao meu lado, no entanto jamais entraria numa guerra de nervos, coação, chantagem emocional.




“Preciso ficar sozinha. Estou furiosa e confusa, não é um bom momento para falar com ninguém. Viajo hoje e ainda não sei quantos dias ficarei fora. Desculpe-me.”
O SMS chegou assim na antevéspera de ano novo, enchendo-me de dúvidas e inseguranças. Eles haviam se encontrado, conversado? O que poderia ter acontecido para que ela não tivesse decido por Pedro? Ou por mim? Sozinha por quê?




– Nicole, você sabe de alguma coisa? Por favor, me dê uma dica, pela primeira vez eu me sinto cego... Não consigo compreender! – acabei apelando para para minha prima, que ainda estava aproveitando os poucos dias de férias na casa de sua mãe.
– É claro que a Léo falou comigo, Yuri! O que você tem na cabeça?! Apresentar a Nina ao Pedro na Itália, achar que tá tudo bem e esquecer de mencionar pra Léo?
– Eu não esqueci! Foi um pedido dele! Ela sabe disso! Meu Deus que drama!
– É sério que você não sabe no que deu toda essa história?
– Que história, Nick? Puta merda! Só eu estou achando tudo isso um exagero descabido?




– Nossa! Dois palavrões... Estou chocada!
– Não tem graça...
– Olha, Yuri... pelo que entendi, Nina e Pedro não se limitaram a uma “simples amizade”... Bem, isso não seria um problema, afinal os dois estavam solteiros, mas não sei exatamente de que forma a coisa foi contada pra Léo, mas foi a versão do Pedro que ela ouviu. Você sabe, ele é meu amigo, melhor amigo do Neto e eu o amo muito, mas sou ciente do quanto ele pode se descontrolar em se tratando de Leandra. O que sei é que ela está se sentindo traída. Por você e por ele.
Droga!
– Me dê o número do Pedro, Nicole. Agora!




Pedro não se opôs a me encontrar, como previ. Muito pelo contrário mostrou-se muito disposto. Deixei Ariel com Nicole e o aguardei no Horto Florestal, lugar sugerido por ele. Mesmo quando o encarei, não pude adivinhar se ele sabia do encontro inesperado que eu e Nina tivemos com Léo naqueles jardins. Meu coração batia um pouco acima do ritmo e eu quase bufava.
– Nervoso, professor? – perguntou com cinismo.




– Como pôde ser tão cretino? – fui direto ao ponto. – Como pôde se aproveitar de uma criatura boa como a Nina pra se vingar de mim?! Você... você é doente!
– Ou! Ou! Ou! Senhor Politicamente Correto, vai com calma! Não se dê tanta importância, assim, tá legal?! Eu e Nina nos envolvemos sim, mas isso não tem nada a ver com você!
– Ah, Pedro! Não se faça de santo!
– Não me faço! Mesmo! Nunca me fiz, mas nem por isso a Nina deixa de ser uma mulher extremamente atraente e absolutamente interessante. Você sabe que ela é. Ou estou enganado, e no fundo ela foi só um passatempo pra você? Afinal não foi você quem a deixou te esperando no aeroporto? Que tipo de homem faz isso com uma mulher? Posso te garantir que fui muito mais gentil que isso.




Deus, como eu desejava fazê-lo sangrar por jogar na minha cara as verdades que eu detestava relembrar! Talvez tenha sido o motivo de ele escolher um local público. Não nos matarmos.
– Se de fato a acha tão maravilhosa, porque não estão mais juntos, então?
– Ah, rapaz! Não vou te responder isso. Não é da sua conta. Mas se estiver muito curioso pode perguntar a ela... Eu achei que quisesse saber era da Léo. Foi por isso que vim.
Era óbvio que a conversa que tiveram me interessava, como era óbvio que ele faria tudo para tentar me desestruturar. Me dei conta da imensa idiotice que foi tentar algum diálogo com Pedro. Era com Nina e com Léo que eu deveria conversar.




Pedro levantou a sobrancelha e estufou o peito antes de completar. – Pensei que desejasse saber como foi a minha conversa com ela...
– Sua falsa segurança não me intimida, Pedro. Se se sentisse tão confiante, certamente não invadiria minha casa alcoolizado, falando improbidades.
– Eu tinha bebido, mas não estava bêbado. Sabia o que estava fazendo.
– É? E o que estava fazendo? Bancando o cavaleiro medieval? Pelo amor de Deus, pensei que fosse um pouco mais maduro!
– Só quero a minha mulher de volta.




– É, mas se você quiser mesmo, vai precisar agir com um pouco mais de tutano, e menos testosterona.
– Está tentando me ensinar como roubar a Leandra de você?! Surpreendente, professor!
– Léo nunca foi prisioneira em minha casa, e se você fosse menos impulsivo, ela não teria corrido para os meus braços. Você quem a entregou de presente, Pedro. Mas essa discussão não tem a menor relevância, porque para mim, é muito mais importante que ela seja feliz, independente de com quem ela deseja ficar.




Ariel pediu para dormir na casa de tia Débora com Nicole e eu não me opus. Tentei atender a vontade de Léo, não telefonando, nem tentando arrancar informações de minha prima sobre seu paradeiro, e isso não era tarefa fácil. Ainda por cima, minha imaginação criava cenas eróticas e nada agradáveis de Pedro e Nina, fazendo questão de projetá-las no meu cérebro como slides. O que estava acontecendo comigo? Porque isso me incomodava?




O telefone tocou me tirando do devaneio.
– Graças a Deus! – exclamei antes de me levantar para atender.
– Fala, veado! É o Trev! – a apresentação era dispensável, claro. – Olha só, vai rolar a tradicional festinha de ano novo aqui em casa, com muita bebida e mulheres gostosas à vontade! Se você estiver desacompanhado ainda...
– Obrigada, Trev! Mas não... Ainda estarei com Ariel, e não acredito que seja ambiente para ela.
– Porra, cara! Seu pai ou sua tia não podem ficar com ela? Orgia pura! Vai te fazer bem!




Eu suspirei, na dúvida entre dar uma resposta educada, xingá-lo, ou simplesmente desligar o telefone, mas Nina tomou-lhe o telefone das mãos.
– Ei, Yuri... É exagero dele, você sabe como Trev adora “causar”... De qualquer jeito acho que Ariel não vai mesmo achar esta festa interessante...
– É, eu sei, vou manter a programação de sempre... Quando estou com ela costumamos assistir aos fogos na praia, já que é perto. Normalmente combinamos de encontrar o Rey, a Mel e o Deco... Aliás, obrigado pela conversa que teve com ela, apesar de ela não ter tocado no assunto, parece que está bem tranquila...




– Não foi nada de mais, não precisa agradecer... Ela é muito inteligente e madura. Vai saber lidar com isso...
– Vai? Eu só espero que ela saiba que pode contar comigo, se quiser conversar...
– Ela sabe, Yuri. Fique tranquilo. Mas nem sempre vai falar sobre tudo com você... Por mais incrível que você seja, é homem... e o pai dela... No entanto ela deixou bem claro que também tem a mesma abertura com a Sônia... Vocês estão de parabéns na criação dessa menina, pelo que pude notar. Bom, mas... quem sou eu pra avaliar, não é? Nunca fui casada, nem nunca fui mãe e sequer me saí bem nos meus últimos relacionamentos...




– Ah, Nina... Eu...
– Não estou me lamentando, Yuri. Tudo bem. Apenas me justificando.
– Se não estiver pretendendo ficar bêbada nem pegar mulheres gostosas na festa do seu primo, gostaria de passar o ano novo com a gente? A comida não é das melhores, mas prometemos um belo visual e roupas cheias de areia...
Ouvi sua deliciosa risada do outro lado da linha, confortando meu coração.
– Eu vou adorar, Yuri. Obrigada pelo convite...