sexta-feira, 9 de novembro de 2012
XXIV – De Última Hora (Parte IV)
– Eu... queria te contar que vinha para Belladonna, mas fiquei na dúvida se deveria.
– Bem, o Pedro acabou decidindo por você! Da pior maneira.
– Oh! Sinto muito...
– Não sinta. – respondi mal humorado.
– Sabe, aquele dia na boate em Turim, depois que você foi embora, acabei encontrando o Pedro de novo...
– Isso não é da minha conta. – eu a cortei, e ela se sobressaltou com minha grosseria. – Me desculpe. Tive uma péssima manhã, e minha tarde já não começou muito bem.
– Quer que eu vá embora?
– Não é você, Nina. Perdão. – suspirei. – Então você e Pedro ficaram amigos? – perguntei tentando me mostrar interessado.
– Pode se chamar assim... Olha, Yuri, eu te gosto muito e confesso que no fundo fiquei feliz de te ver. Temia muito só conseguir te encontrar na companhia dela e não poder me aproximar... Desculpa.
Olhei para ela e seus olhos estavam embotados. Droga! Como eu sou desprezível.
– Eu percebi que não está com nenhum humor, então... vou deixar você... em paz...
– Ah, Nina!
Eu a puxei num abraço apertado e senti suas lágrimas molharem meu moletom.
– Eu estava com tanta saudade, eu... desculpa. – pediu em soluços.
– Por favor, pare de se desculpar...
Nina permaneceu com a cabeça em meu colo e eu a afaguei até ela se recompor.
– Gostei do seu corte de cabelo... – elogiei. – ficou bonito.
– Ah... Obrigada... – sorriu quando levantou o rosto e me encarou novamente, fazendo-me lembrar o quão linda ela é.
Continuou me encarando enquanto o sorriso se desmanchava e o silêncio começava a sufocar. Aproximou-se a ponto de seus lábios quase tocarem os meus, e creio que me beijaria se não fôssemos interrompidos pelos gritos enfurecidos de Ariel.
– Papaaaaaaaaaaaaaaaaaaai! O Deco me beijou!
– O quê? – pensei alto, tentando entender o que se passava e Nina se afastou como se acordasse de um transe.
– É isso mesmo que você ouviu! Esse... esse... esse descarado, me deu um beijo! Na boca, pai!
Eu estava atordoado. Não só pela narrativa da história, mas pela cena que eu mesmo protagonizava segundos atrás.
André vinha atrás dela na varanda, com a culpa estampada em seu olhar.
– Eu... eu... Desculpa! É que... Tio Yuri, eu posso namorar a sua filha? Eu gosto tanto dela, tanto...
O que fazer nessa situação? Ariel parecia realmente aborrecida, mas conhecendo-a como a conheço, creio que mais por ter sido pega de surpresa, do que por causa do beijo em si.
– Ei, Ariel! Venha comigo... – chamou Nina, piscando para mim. – Vamos conversar enquanto seu pai esclarece algumas coisas com o Deco?
André se aproximou cabisbaixo e envergonhado.
As duas entraram para a sala e eu me dirigi a André. – Duro, não?
– É, estou angustiado e você não me respondeu...
– Olha, Deco... Eu admiro a sua consideração em me pedir, mas eu não posso aceitar pela Ariel. Se você me perguntar se eu gosto de você como namorado dela, eu tenho como responder: sim, você é um garoto incrível e não poderia desejar melhor sorte, mas... quem tem que decidir é ela, concorda?
Ele assentiu com um meneio.
– De qualquer forma eu vou te dar um conselho. Faça um esforço e tente não agir por impulso e não force uma situação. Seja honesto, seja franco, mas não tente roubar nada de nenhuma garota sem autorização. Nem mesmo um beijo inocente. Elas podem entender tudo errado!
– Foi mal, tio...
– Não peça desculpa pra mim. Peça para a baixinha, é ela quem está chateada...
– Ariel não vai nem querer me ver, que dirá me escutar...
– Nina está conversando com ela e tenho certeza que tudo vai ficar bem entre vocês mas... não acham que estão muito novos para namoro não?
– Eu não sei se sou novo. Eu só sei o que sinto. E eu gosto da Ariel, tio. Muito mais do que gosto de qualquer amiga da escola, ou do curso de inglês, ou da vizinhança, ou de qualquer menina que já vi na TV. Gosto tanto que meu estômago dói só em pensar que pode não querer mais ser minha amiga.
Eu e Nina não tivemos mais nenhuma oportunidade a sós. Na verdade era notório que ambos evitamos tal coisa com afinco. Ariel recusava-se a falar comigo, ainda estava mal humorada quando chegamos em casa e subiu direto para seu quarto. Eu me peguei perturbado por tudo que havia acontecido nas últimas horas. Sentia-me confuso e aflito. Apanhei o telefone e disquei para a Léo, primeiro para o celular e então para sua casa. Ela não atendeu, e eu não insisti. Se Leandra precisava de tempo e espaço, eu tentaria dar.
No entanto, no dia seguinte pela manhã, ela retornou minhas ligações.
– Olá... – atendi. – Bom dia...
– Oi... – ela respondeu com simpatia. – Tudo bem?
– Tudo. Estou com saudades.
– Eu também... O que... o que vocês fizeram ontem? – perguntou. Embora se esforçasse, sua voz não estava natural.
– Passamos a tarde na casa do Rey...
– Ah legal... Eu almocei com o Tatá e Jean Pierre, Gegê e Zeca... Eles vão se casar... ano que vem.
– Léo, escuta...
– Eu posso dar um pulo até aí? – ela não me deixou continuar.
Desde quando precisava de minha autorização para vir?
– É claro... Está tudo bem?
– Sim, eu... só queria falar com você...
Desliguei o telefone com péssimos pressentimentos.
– Ele me ligou. – foram suas primeiras palavras ao entrar. Saíram quase cuspidas. – O Pedro... me ligou ontem à noite. Sóbrio, quero dizer...
– É? E vocês conversaram? – tentei controlar minha respiração ao perguntar. Em vão.
– Não... Mas ele quer... Queria ir lá em casa, mas eu não deixei que fosse. Não antes de falar com você.
– Por quê?
– Como assim? Eu queria te consultar! Se você não quiser eu não vou encontrá-lo. Não sozinha.
– Jamais interferiria desta forma entre vocês, mesmo que ele não fosse seu irmão. E se alguma coisa mudar em você depois disso, eu vou entender e aceitar.
– Como você pode ser tão... frio?!
– Eu não sou frio, Léo! Não sou e você sabe! O que quer que eu te diga? Que vou sofrer miseravelmente? Que não sei se um dia vou ter esperança de vislumbrar um pouco da felicidade que tive ao seu lado? Que não vejo sentido em nada a minha volta quando você não está comigo? É isso? Você jura que vai se sentir melhor se ouvir isso de mim?
Ela baixou a cabeça, sem argumentos.
– Você não quer tomar a decisão e quer que eu faça por você, mas eu não posso. Não tenho o direito de fazer isso, embora tenha muita vontade. Lamento Léo, não posso mesmo. Você é a única pessoa que pode resolver isso.
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