sexta-feira, 2 de novembro de 2012
XXIV – De Última Hora (Parte III)
– Eu não vou falar com você agora, nesse estado. Vá dormir! – ordenou Léo. – Você está fedendo a álcool e perfume barato.
– Eu bebi, mas não estou bêbado, já disse, e não tenho culpa se nenhuma mulher cheira bem como você.
– Você não tem o direito de fazer isso! Invadir a casa dos outros dessa maneira. Tem uma criança dormindo lá em cima, sabia?
– Me desculpe, pensei que estivesse com a mãe, pois ontem estava com o pai, e... ah! Esquece! Desculpe! Vem, vamos pra casa.
– Eu estou em casa, Pedro. Vá embora.
A frase lhe causou um baque, e ele assentiu, saindo cabisbaixo. Léo não olhou para mim, nem nada falou. Deu-me as costas e subiu as escadas de volta para o quarto. Praguejei internamente. Como eu podia ser tão estúpido? Não que eu achasse que Pedro fez de propósito, mas estava na cara que era o tipo de coisa que não daria para esconder. Esperei alguns minutos ainda, respirei fundo e subi atrás dela.
Léo já estava vestida, e jogava roupas e objetos pessoais numa bolsa em cima da cama.
– O que está fazendo?
– Vou voltar pro meu apartamento, Yuri.
– Ah não, Léo... Pra quê isso? Fale comigo.
Ela abandonou a tarefa e se virou.
– Sobre o que quer conversar? Sobre honestidade? Você me diz que não gostaria que eu escondesse nada, e omite que esteve com o Pedro em Turim? Na companhia da Nina! – sua voz deu um salto em decibel ao pronunciar o nome.
– Eu sei que agi errado, mas ele me pediu! Parecia tão fragilizado! O que você queria que eu fizesse?
– Que me contasse! Era o mínimo!
– Eu contei o que nos dizia respeito. Pensei que Pedro não entrasse nesse mérito.
Léo suspirou e voltou ao que fazia antes. – Sem drama, Yuri. Eu não moro mesmo aqui, afinal.
– Entendi que havia dito justamente o contrário ainda há pouco lá embaixo.
– Eu tinha que fazer ele ir embora. Ia acabar acordando a Ariel.
– Não vá, Léo.
– Eu preciso.
– Esta casa só não é sua porque você não quer.
Terminou de arrumar suas coisas e caminhou para porta.
– O que foi que o Pedro disse pra você? – inquiri, forçando-a parar.
– Que pergunta é essa? Você estava lá embai...
– Não agora, ontem! – eu a interrompi. – Na casa do seu pai, assim que nós entramos e ele nos cumprimentou. Ele te sussurrou alguma coisa...
– Para com isso, Yuri, não tem importância.
– É claro que tem importância, Léo! – exclamei exaltado. Estávamos nitidamente tendo uma discussão. De onde vinha esse ciúme que nunca senti? Eu já não me reconhecia mais. – Ele fala no seu ouvido, você mal troca qualquer palavra comigo a noite inteira, e pela manhã ele invade a casa com a certeza de que nós não tínhamos transado!
Léo ficou chocada. – Ele estava bêbado!
– Ele disse que não estava e não me pareceu tão dopado assim.
– Não me diga que você não sentiu o cheiro do álcool, Yuri! – rebateu.
– Não estava mais forte do que o de perfume feminino.
Os olhos dela brilharam de raiva, e eu esperei por um tapa, achando-me até merecedor. No entanto ela sugou o ar para se acalmar ao me responder. – Tivemos uma noite horrível, tensa. Chegamos em casa exaustos e desanimados. Nem me passou pela cabeça que você tivesse com algum tesão pra transar, Yuri!
– Eu não estou questionando o MEU tesão, Léo. – frisei.
– Você está encucado à toa...
– Então qual é o problema de me contar o que ele disse?
Leandra fez uma pausa longa, e eu sabia que travava uma guerra interior. – Ele disse que voltou pra me buscar. – soltou finalmente, e meu coração soluçou. Por alguns segundos não consegui respirar.
– E você vai? Vai embora com ele pra Itália?
Ela ajeitou a bolsa em seu braço. – Nesse momento eu só quero ir pra minha casa.
Voltei para a cama remoendo minhas reações até Ariel acordar e invadir meu quarto, percebendo meu humor e a ausência de Leandra.
– O que está acontecendo?
– Nada, baixinha... Eu só... estou com um pouco de preguiça.
– Preguiça? E cadê a Léo?
– A Léo... tinha outros compromissos hoje, e deixou um beijo pra você.
Não acreditava que Ariel tivesse engolido aquela desculpa, mas ela nada acrescentou. Eu desviei o assunto.
– E quanto a nós? Vamos ao tradicional enterro dos ossos da Mel?
– Ah, não, papai! Todo Natal?! – exclamou entortando a boca e franzindo a sobrancelha.
– Você costumava adorar... Fazia tanta questão de ir, que sua mãe brigava comigo porque não conseguia nunca almoçar com você no Natal.
– Eu gostava! Até o Deco virar um exibido!
– Ele não é um exibido, Ariel. E toca piano muito bem pra idade dele... Aposto que se existisse uma atividade que você abraçasse em sua vida, como ele abraçou a música, você também sentiria prazer em compartilhar com quem ama...
– Você tem razão... Gosto de compartilhar fotos do Justin no fórum de Beliebers... Eu ri. Sabia estava fazendo piada do meu comentário.
– Tá aí! Vou levar meu álbum pra mostrar pra todo mundo. Tenho certeza que vão apoiar. É o que mais amo na vida!
– Depois de mim, você quer dizer! – lembrei-a antes de ela sair.
Embora relutante, Ariel acabou aceitando o programa, e chegamos na casa de Reinaldo ao fim da manhã. André nos recebeu empolgado, contado sobre seus presentes.
– Ganhei um PC novinho e agora vou poder doar meu antigo para as crianças do Pôr do Sol! – concluiu. – Vem ver Ariel! Papai já montou hoje de manhã pra mim, quero te mostrar! É muito maneiro e ele já instalou The Sims 3 Sobrenatural!
Distraído naquela conversa, não reparei nas demais presenças. Trevor se aproximou para nos cumprimentar, e atrás dele, encolhida em constrangimento, estava sua prima.
– Nina! Uau! Quanto tempo! – Ariel pulou em seu pescoço assim que a viu. Ela retribuiu o gesto carinhosamente e lhe disse algo que não pude ouvir, pois Trevor me abraçava com forte animação.
– E aí, manezão! Eu podia jurar que não ia te ver hoje! Aliás, há muito que não te vejo, seu ingrato! Cadê a patroa?
– Léo tinha outros compromissos...
– Espero que não com o irmão dela, né? – provocou.
Respirei fundo. Reinaldo me puxou para um canto e disse baixo em meu ouvido. – Mandei um sms para avisar que Nina estava aqui, claro que Trevor não nos comunicou que ela vinha!
– Está tudo bem, Rey... – eu não havia checado meu celular. Gafe detectada um pouco tardiamente.
Deco puxou Ariel pelo braço e os dois desapareceram pelo corredor. Assim que tive uma oportunidade me refugiei na varanda. Trevor consegue ser muito inconveniente quando está disposto, e eu já não havia tido a melhor das manhãs. Mesmo sem virar meu rosto percebi Nina em meu encalço.
– Me desculpa, Yuri. – pediu, se aproximando. – Trev me jurou que vocês não estariam aqui. Eu jamais viria se soubesse.
– Trevor adora causar constrangimentos, eu já estou acostumado. Irrita-me apenas que ele faça essas coisas com você e com a Léo.
– Eu... posso te perguntar onde ela está? A Léo...
– Pra ser sincero, eu não sei ao certo...
– Lamento muito, Yuri. De verdade.
– É... Eu também...
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