sexta-feira, 20 de abril de 2012
XIV – O Que Precisava Ser Dito
As aulas na UFEB recomeçaram, assim como o trabalho no Pôr do Sol, tomando horas preciosas do meu dia. O restante do meu tempo procurava estar com Nina e Ariel. A baixinha estava adorando a presença constante de Nina, e talvez até desconfiasse que nosso relacionamento fosse além de uma simples amizade. Mesmo assim, preferimos não assumir nada oficialmente, para evitar frustrações no momento que Nina tivesse de nos deixar.
Em um fim de semana destes, em que estaríamos os três juntos, Ariel chegou à cozinha e avisou logo pela manhã.
– Marquei hora com o Jean Pierre hoje... Preciso estar lá às três.
– Quem?
– Jean Pierre, papai! O hair stylist! Você vai me levar?
Só então me lembrei. Era o cabeleireiro da Léo. E, por adorar imitá-la em quase tudo, Ariel também o adotou.
– Claro... Eu e Nina podemos dar uma volta enquanto você corta seu cabelo... – Eu não estava disposto a perder minha tarde de sábado dentro de um salão de beleza. – Depois passamos lá pra te buscar.
– Nã-hã... Marquei manicure e hidratação para ela também...
– Ah, que ótimo!
Derrotado por dois a um, após o almoço coloquei as duas no carro e parti para o centro da cidade. Estava terminando de estacionar quando Ariel me chamou com a voz arrastada:
– Paaaaaai... Eu preciso te dizer uma coisa. – esperei a pausa que ela fez para inspirar. – O horário que marquei com o Jean Pierre não foi pra mim, foi pra você!
– Como é que é?! – perguntei indignado. – Quem disse que você podia fazer isso?! E eu não preciso cortar o cabelo!
– Quem não precisa sou eu! O seu cabelo tá horrível, todo quebrado! E pára de fazer pirraça na frente da visita! Tá me matando de vergonha! Além do mais eu já agendei massagem de chocolate pra mim no mesmo horário. Quer trocar?
Voltei meu rosto para Nina procurando algum apoio.
– Não olhe pra mim, eu não tenho nada a ver com isso! – justificou-se atrás de um sorriso divertido.
– Ora, ora se não é a Mini Léo?! – exclamou o cabeleireiro assim que entramos. Reconheci Jean Pierre imediatamente, apesar de só tê-lo visto uma vez em minha vida e há muito tempo. – Tudo bem, princesa? O que vai ser desta vez? Vai fazer um chanelzinho ou só aparar as pontinhas?
– Ah, Jean Pierre, hoje eu só vim fazer uma massagem, quem vai cortar é o papai!
– Hummmm... entendi! – Jean Pierre fez uma reverência aproveitando para me examinar minuciosamente. E eu não gostei nem um pouco da expressão em seu rosto quando bateu os olhos em meus cabelos. – Sente-se ali que já já consertaremos esse estrago...
O cabeleireiro fez um aceno e quatro integrantes de sua equipe levaram as garotas para outra sala, enquanto ele se aproximava de mim com uma tesoura.
– Eu juro que não vai doer... – prometeu com cinismo.
Eu já tinha lido o jornal por inteiro – inclusive os classificados –, e nada de Ariel ou Nina voltarem de onde quer que tivessem se enclausurado. Havia perdido meu cabelo, meu sábado, e estava prestes a perder todo o meu humor.
– Yuri? – Ouvi alguém me chamar. – É você?
Baixei o jornal e reconheci um ex-aluno.
– Oi, Tadeu... Tudo bem?
– Tudo! Caramba, Yuri! Quanto tempo!
Assim como Léo, Tadeu foi meu aluno durante seu ciclo básico na faculdade de Medicina da UFEB. Também costumava ser seu melhor amigo. Estava trajando um jaleco e, diferente dela, havia concluído seu curso. Agora estava fazendo residência médica.
– É... Bastante... Como você está?
– Ótimo! Estou trabalhando com Doutor Olívio, a Léo te contou? Pretendo ser um cirurgião tão bom quanto o pai dela! Mas falei pro Jean que estava me especializando em ginecologia, só pra implicar com ele! Se ele perguntar, confirme!
Eu ri. Tadeu sempre foi espirituoso, e há alguns anos já dividia a casa e a cama com Jean Pierre, seu companheiro.
– Pode deixar! – assegurei-lhe.
– Por falar em Léo... Ela e Pedro já estão de volta a Enseada... Agora definitivamente! O apartamento deles está ficando um arraso! Ela é tão boa nisso! Aliás ela é boa em tanta coisa! – Tadeu falava sem parar, eu mal conseguia assimilar tudo. – Estou tão feliz que ela esteja de volta! Nossa como eu sinto saudades!
– A Léo voltou?! – ouvi a voz de Ariel atrás de Tadeu, surgindo do nada. – Porque ela não me avisou?! – o tom de decepção em sua voz me partiu em pedaços. A culpa era minha.
Tadeu sentiu meu desconforto e improvisou.
– Ah, mas foi ontem! E ela tava tão cansada! Chegou a comentar que queria falar com você, mas eu a aconselhei a descansar... Não fique zangada com ela, tenho certeza que ela vai te ligar... Certeza, Ariel!
O silêncio no carro na volta pra casa foi aterrador, mas nada poderia se comparar ao olhar que Nina me lançou após chegarmos em casa e Ariel subir cabisbaixa as escadas em direção ao seu quarto, sem sequer nos dar boa noite.
– Quer conversar? - quase não pude escutar a pergunta, tão baixo era seu tom de voz.
– Você quer mesmo ouvir?
– Eu acho que não tenho muita escolha, depois disso tudo... – suspirou. – A propósito... eu não tive oportunidade de falar... mas gostei do seu cabelo...
Ainda que eu resumisse, não omiti nem uma parte da minha história com Léo. Nina escutou atentamente, e sem me interromper. E mesmo depois que terminei, ela permaneceu calada por longos minutos, numa espécie de digestão.
– E agora? – finalmente perguntou. – O que pretende fazer?
– Como assim o que pretendo? Eu não pretendo fazer nada... Eu que pedi para que ela não voltasse, como posso ligar e pedir que ela desconsidere?
– Você não pensou em Ariel.
– Eu não pensei?! – exclamei um tom acima. – Quem não pensou foi ela! Ariel estava na casa de Sônia, Léo podia ter telefonado pra lá.
– Como é que ela ia saber? E depois... Ela deve estar tão magoada que até a imagem de Ariel deve fazê-la sentir-se mal.
– Porque você está defendendo a Léo?
– Não estou defendendo ninguém, Yuri. – respondeu também levantando a voz. – Estou apenas me colocando no lugar dela. Eu estaria em frangalhos se você tivesse dito pra mim o que disse pra ela! É isso!
Visivelmente abalada, Nina suspirou. Eu a puxei para mim e a segurei com força, temendo que ela desaparecesse, como mágica.
– Me desculpe, Nina... Eu não quis gritar com você, eu...
– Você ainda a ama, não é? Mesmo depois de mandá-la embora, mesmo depois de nós... – ela não conseguiu completar, e embora eu não quisesse responder, ela merecia minha sinceridade, por mais ingrata que fosse.
– Amo. – a palavra saiu como um tiro e os ombros de Nina cederam. Eu pensei que ela fosse desmontar.
– Mas estou completamente apaixonado por você... – acrescentei.
Sua resposta veio em forma de soluços e lágrimas, fazendo com que eu desejasse desistir da minha existência.
– Por favor, acredite!
– Eu acredito em você, Yuri... – respondeu enxugando o rosto. – Acho que você está longe de ser um cafajeste mentiroso. Pelo menos essa conversa me fez cair na real... Eu não posso me esquecer de que vou embora, e não tenho o direito de te exigir nada.
– Não fale assim...
– Falo porque é verdade! Mas veja se consegue fazer um favor pra você mesmo... Se ame um pouco mais.
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