sexta-feira, 13 de abril de 2012
XIII – Uma Pequena Prorrogação
– Olha só quem se deu bem essa noite! – a voz de Trevor invadiu o quarto de hóspedes, me acordando de sobressalto. Com o meu movimento, Nina gemeu e se revirou na cama, mas não abriu os olhos. Nós tínhamos acabado de pegar no sono e o dia ainda não havia amanhecido.
Com algum esforço agilidade, consegui me levantar de forma rápida, evitando que Nina despertasse.
– Shiu! – murmurei. – Vai acordá-la!
Trevor estava cheirando a bebida e parecia nem estar me escutando.
– Muito bonito, heim, Don Juan! Comendo a prima alheia!
Empurrei meu amigo para fora do quarto e fechei a porta atrás de mim.
– Como é que você consegue se referir à gente dessa forma? Não que eu já não esteja acostumado... Mas a Nina é sua prima, pelo amor de Deus!
– Ela não ouviu...
– Mas podia ter ouvido!
– Ih, a'lá! Dormiu com a gata uma vez e acha que conhece ela melhor que eu? Pra sua informação, ela dorme como uma pedra, e mesmo que tivesse ouvido, me conhece o suficiente pra saber que eu estou brincado, sua bicha azeda!
Eu bufei, mas deixei-o sem resposta. Ele encarou meu silêncio como um tratado de paz.
– Mas diz aí... Como foi? Gostosa? Como é que ela peg...
– Nem tente! Não perca seu tempo! Não vou conversar com você sobre isso! Não vou! – interrompi antes de ele completar a pergunta.
– Taqueosparilll! – criar derivações para palavrões fazendo questão de enrolar a língua é, sem dúvida, um dos passatempos preferidos de Trevor – Como você é enguiçado! Tu não deu vexame não, né? Vai me dizer que você broxou?!
Novamente eu me calei, mas não o deixei sem resposta desta vez, e mostrei-lhe um gesto feio com a mão.
Esperei uma saraivada de xingamentos em revide, mas eles não vieram, ao invés disso, Trevor estava gargalhando tanto que chegou a aparar o próprio ventre.
– Nossa! A gata mexeu tanto contigo assim, é?! Acho que desde a faculdade eu não te vejo reagir a uma provocação! Tudo bem que você já podia até ter me dado um belo de um soco, mas o seu dedo médio já é um grande avanço!
Quando finalmente parou de rir, meu amigo me chamou até a cozinha para fazermos um desjejum. Eu não estava com fome, mas qualquer lugar seria melhor do que o corredor dos quartos. Percebendo que eu não contaria absolutamente nada do que acontecera, Trevor acabou desistindo de perguntar. “Ok, não quer falar não fala! Foda-se, bundão!”
Após matar a fome de sua ressaca, Trevor se despediu com um “boa noite” debochado, e foi para o seu quarto. Eu voltei para o de hóspedes e me acomodei na cama, apreciando a beleza de Nina em seu sono profundo.
Nina somente despertou muitas horas mais tarde. Virou-se na cama, abriu os olhos e sorriu ao me ver.
– Tava com medo que você não estivesse mais aqui quando eu acordasse.
– Eu não vou a lugar nenhum.
Já que seriam poucos, que fossem intensos. Os dias ao lado de Nina pareciam passar rápido demais e, aflito, eu acompanhava a contagem regressiva para sua partida. Juntos, também avaliávamos datas em que pudéssemos nos encontrar.
– O que acha desse aqui, feriado da independência? – perguntou mostrando seu calendário ultra organizado no iPhone. – Eu estarei na Espanha. O feriado cai numa quinta, você sai mais cedo do trabalho na quarta, enforca a sexta e chega atrasado na segunda. Teremos quatro dias pra curtir em Barcelona!
– É, simples assim! – eu sorri.
A agenda de Nina era fascinante. Repleta de viagens para lugares interessantes.
– Tem certeza que você tem um endereço fixo? Tenho a impressão que nem o seu porteiro te conhece! – impliquei.
– Pára, tá?! – reclamou manhosa. – Por causa disso eu nunca pude ter um bichinho! Sou louca por animais, principalmente gatinhos, mas não tenho como cuidar.
– Gosta de animais, é?
Levei-a ao Pôr do Sol e mostrei o trabalho que fazíamos, recolhendo animais nas ruas, tratando e promovendo feiras para adoção.
– Nossa! Que coisa linda vocês fazem por aqui, Yuri! E não me refiro só aos bichos... Por que ainda não tinha me falado desse lugar?
– Eu... Eu não sei. – não sabia mesmo. Falávamos sobre tantas coisas, mas de fato não havia mencionado o projeto em nossas conversas. – Então? Vai levar algum? – fugi pela tangente.
– Vou! Esse aqui! – puxou-me para si. Eu retribuí seu abraço, e ela descansou o rosto em meu ombro. – Vá comigo para Paris...
A frase solta com a voz embargada me fez tragar saliva e perceber, de repente, que eu desejava ir. Sim, do fundo da minha alma, eu desejava ir para Paris com ela, mas como?
– Não posso deixar Ariel...
– É, eu sei... – soluçou. – Mas eu precisava perguntar.
A data fatídica se aproximava e era visível o abatimento no semblante de Nina. Eu tentava a todo custo distraí-la, mas nem sempre surtia efeito. Porém, dois dias antes de sua partida, ela chegou a minha casa com outro ânimo. Se por um lado foi confortador, por outro foi um pouco assustador. Ela superaria minha falta, eu a perderia para o mundo.
Nós nos acomodamos no chão da sala. Nina havia mencionado gostar de Almodóvar, e eu havia escolhido "Ata-me" para uma sessão de cinema particular.
– Troquei minhas passagens. – ela avisou de repente no meio do filme, e me dei conta de que ela não devia nem saber o que estávamos assistindo.
– O quê? – surpreendi-me.
– Troquei! Adiei minha viagem, vou ficar mais um mês.
– E seu trabalho, seus compromissos? – quis saber, preocupado.
– Vão esperar! Não estou pronta pra deixar você...
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