Se eu tivesse apostado que Ariel dormiria no curto trajeto para casa, eu teria perdido. Ela sequer apanhava fôlego entre as frases. “Nossa, ela conhece quase o mundo todo!” “Mas como? Ela parece tão nova!” “Mas ela não pode ser nova, com tudo que ela sabe...” “E ela é tão... LINDA!” “Você viu os olhos dela, que cor de olhos era aquela, azul ou verde?”
– Eu também não sei... – limitei-me a responder.
– Talvez sejam cinza... – repensou enquanto subíamos as escadas da varanda. – Como é que ela pode ter algum parentesco com o tio Truta, papai? Eu tô chocada! Você também gostou dela, não gostou?
A percepção da minha filha às vezes me apavorava.
– Sim... Ela é uma garota simpática, inteligente.
– Sabia que ela também é escorpiana?
– Não, eu não sabia.
Não foi algo que perguntei e nunca me ocorreria perguntar. Não sou cético em relação à astrologia, mas também não sou curioso. Nina não me lembrou Léo em nada, mas isso não impediu que eu ficasse intrigado com a coincidência.
Continuei o restante daquela semana “brincando de gangorra”. Fingia estar dormindo, ou entrava no banho no exato momento em que Léo passava para pegar Ariel. Porém naquele dia, minha filha resolveu entrar no quarto.
– Léo vai embora amanhã para Desiderata, você não vai descer nem para se despedir?
Continuei de olho fechado, e deixei-a sem resposta, sustentando a minha mentira. Porém, achei que não faria mal estar presente para dar-lhe adeus quando elas voltassem do passeio.
Eu não tinha muita coisa para fazer, então entrei no quarto da baixinha para pegar suas roupas sujas e me deparei com várias peças no chão. Abaixei-me para pegá-las no mesmo momento em que o telefone tocou.
– Alô, É da casa do Yuri? – perguntou a voz que não reconheci de pronto.
– Sim, sou eu. – respondi esperando uma identificação.
– Oi, Yuri... É Nina... Tudo bem?
– Ah, olá Nina! Tudo e contigo?
– Tudo bom... Ariel está por aí?
– Hum, não... Ela deu uma saída com uma amiga...
– É que eu estava revirando minha mala e achei umas micas e uns postais muito legais! Acho que ela vai gostar!
– Pra falar a verdade eu também estava querendo uma desculpa pra sair daqui... O Trevor chegou da rua com companhia e os ruídos do quarto estão ecoando pela casa toda, você consegue imaginar?
– Não que eu deseje... – soltei uma risada e ouvi a dela do outro lado da linha, o que me encorajou. – Precisa de carona para algum lugar?
– Se você puder me fazer esse favor...
Cheguei cinco minutos antes do horário combinado e a esperei encostado no carro. Nina estava ainda mais bela do que eu conseguia me lembrar. Vestia um modelo de alcinhas e sandálias rasteiras – estilo verão, bem descontraída – e sorriu para mim enquanto descia as escadas.
– Meu salvador!
Percorremos de carro as ruas de Enseada e ela reconheceu muitos locais. Paramos em alguns deles para que matasse a saudade, como a Chácara Tropical, onde passeamos pela estufa e saboreamos um refinado e tradicional café, cercado de plantas exóticas. Também a levei a lugares novos que ela desconhecia, como o restaurante do Belladonna Tower, onde desfrutamos um almoço apreciando uma vista espetacular de um dos edifícios mais altos da cidade.
Convidei-a para minha casa a fim de esperarmos Ariel chegar de seu passeio. Sua conversa agradável e envolvente me desligou do tempo, e só percebi que era noite quando a campainha tocou.
– Caramba! Que horas devem ser? Não sabia que Ariel demoraria tanto, desculpe prender você aqui...
– Eu não estou acorrentada, estou?
Pedi licença a Nina e fui até a porta de entrada. Ariel estava eufórica.
– Léo vai voltar mesmo pra Enseada, papai! Já está decidido! Só vai pra Desiderata pra empacotar a mudança, não é Léo? Hein, hein?
– É, entre outras coisas, Ariel... Devo ficar um mês por lá, até conseguir acertar tudo... – Léo explicou.
– Não importa! Só um mês... Depois é pra sempre!
– Pra sempre é muito tempo, Ariel... – observei.
– Às vezes você é um chato, sabia?
Léo não conseguiu segurar o riso.
– Olha, eu não devia te contar nada pela sua má-criação, mas... A Nina está aí e trouxe umas coisas pra você...
A baixinha imediatamente mudou de humor.
– Jura?! Cadê ela?
– Lá atrás no deck da piscina. – respondi ao mesmo tempo em que ouvia a voz perscrutadora de Léo.
– Nina?
Ariel sumiu por dentro de casa e voltei minha atenção para Leandra.
– É uma amiga, prima do Trevor, ela mora no exterior há muitos anos e está por aqui a passeio esses dias.
– Ah, do Trevor... – deixou escapar. Léo não disfarçava sua antipatia por meu amigo. Ela havia o visto pouquíssimas vezes, portanto o conhecia apenas superficialmente. Porém, em se tratando de Trevor, era mais do que o suficiente. – Bem, parece que ela é muito legal, Ariel nem se lembrou de me dar um beijo!
– Você não quer entrar?
Léo ficou relutante de início, mas acabou aceitando o convite. Quando chegamos ao deck, Ariel e Nina estavam sentadas entre postais, micas e DVDs espalhados no chão.
– Ah! E esse aqui fui eu mesma que filmei, quando voei de balão em Queenstown, na Nova Zelândia. – ouvimos Nina dizer. – Então não ligue pra qualidade, é muito amador, e confesso que minhas mãos tremiam de medo.
Ariel soltou uma risada alta, e ao balançar a cabeça nos viu.
– Ei, Nina... Essa é nossa amiga Léo. Léo, a Nina mora em Paris... Não é um sonho?
– Sim, claro que é... – concordou sem graça.
– Eu já não conheço você de algum lugar? – indagou Nina, curiosa.
– Certamente que não... Eu me lembraria.
– Que estranho... Dificilmente esqueço um rosto. E tenho quase certeza de que já vi o seu.
Houve um minuto interminável de silêncio, e imaginei que a presença de Nina seria memorável até mesmo para Léo.
– Lembrei! – a voz de Nina cortou o momento taciturno – Você não é a esposa daquele zagueiro bonitão... Pedro Gregório? Vi uma matéria em alguma revista, porque parece que ele assinou contrato com um time da França, algo assim... E acho que você estava na foto junto com ele...
– Não é esposa, é namorada! – a baixinha a corrigiu. – E não! Eles não vão mais! Vão voltar pra cá. – concluiu, dona de si.
– Bom, eu tenho que ir... – Léo deu de ombros antes de voltar-se para Ariel. – Ô sua vira-lata! Eu vim receber meu beijo de adeus! Você me largou lá na porta e nem se despediu!
– Adeus não! É só até logo! – Ariel corrigiu Léo desta vez, e esticou-se para abraçá-la.
Levei Leandra até a varanda de entrada depois de deixarmos Ariel e Nina conversando na área da piscina.
– Ela é muito bonita... A Nina... – Léo soltou de repente. Eu concordava, é claro, mas não me manifestei, e ela mudou de assunto. – Sabe, nós tivemos aquela conversa que você sugeriu. Eu e Pedro... Você tinha razão.
– Que bom, Léo... Fico feliz por vocês...
– Mesmo? – Questionou. E eu me vi desarmado.
Escolhi cuidadosamente as palavras antes de responder. Tentei sorrir, mas não sei que expressão meu rosto tomou.
– Ok, eu não estou sendo totalmente honesto. Eu fico feliz por VOCÊ, Léo. – frisei. – Eu gostaria que as coisas tivessem sido diferentes, já te disse isso uma vez... Mas elas não foram. Eu amo você, Leandra. E sei que você sabe porque por mais que eu tente disfarçar, sufocar, esconder... simplesmente não funciona! Me desculpe por isso. Mas fique tranquila. Meu amor estará conformado e minhas emoções controladas enquanto você estiver feliz.
Léo se atirou em meu colo e me abraçou quase como da primeira vez, anos atrás, no parque preferido de Ariel.
– Você é inacreditável, Yuri. Sou eu quem lhe deve desculpas. Minha razão diz insistentemente que eu devia te deixar em paz, que estou agindo errado com você e com o Pedro, mas... Se estar perto de você sem poder te tocar parece um castigo, a ideia de não estar contigo é uma completa tortura. Eu... não sei como mudar isso... Me ajuda?



















