sexta-feira, 23 de março de 2012

X – Nina


Apesar da minha negativa àquele pedido velado, a conversa com Pedro me deixou sequelas. Nos dias que se seguiram, recusei todos os convites para participar das programações de Ariel com a Léo e evitava até mesmo encontrá-la na porta de casa. Aproveitava o tempo sozinho para ficar no Pôr do Sol. A baixinha por sua vez parecia estar fazendo voto de silêncio. Pelo menos comigo.
– Beleza! Aceito sua mudez como um sim. Já está pronta? Sairemos em vinte minutos.




E calada ela permaneceu até o nosso destino. Trevor havia me chamado para jantar, e embora eu não estivesse muito animado, acabei aceitando depois de ele insistir exaustivamente, e garantir que só havia convidado a família de Reinaldo além da gente. Meu amigo nos esperava na entrada. Como “bon vivant”, nunca precisou trabalhar, e sua casa elevada era o retrato mais fiel de sua ostentação.




– Tampinha! Você tá muito gata! Assim você vai matar o pobre Deco do coração!
Pensei que Ariel fosse explodir tamanha era sua vontade de responder com malcriadez, mesmo assim se controlou.
– Nem adianta provocar, Trevor! Ela está fazendo greve. Não vai falar nada...




– Ah! Entendi... Puxa vida, que pena, mas... será que ela consegue... – ele fez uma pausa dissimulada, exagerando no drama. – Prender o riso?
Trevor avançou com as mãos em cima de Ariel, que riu e se contorceu, não resistindo às cócegas. 




Porém assim que conseguiu se recompor, soltou seu mau humor em Trevor. 
– Você é tão imaturo! – Ela finalmente falou antes de dar às costas e entrar.
Trevor caiu na gargalhada diante da constatação da baixinha.
– O pior é que ela tem razão! – e ria mais ainda de si mesmo. – Bora subir! Reinaldo já tá aí com o Deco e a patroa...




– E tem mais uma pessoa que eu queria te apresentar... – ele continuou enquanto subíamos pelas escadas.
– Droga, Trevor! Você prometeu que éramos só nós.
– Mas minha prima chegou de viagem e está hospedada na minha casa! O que você quer que eu faça? Diga que ela não está convidada pro jantar porque o meu amigo cuzão tem problemas com mulheres que não possuem nome de homem? Porra, vai se fuder!



Diante de argumentos tão convincentes, eu achei por bem não levar aquele bate-boca adiante. Entramos na sala onde Reinaldo segurava um copo de bebida enquanto observa Ariel fazendo caras e bocas para um pobre e encantado Deco. A cena patética me fez questionar se não seria melhor de fato ter uma personalidade mais desapegada, como a de Trevor. 




Ao fundo, perto da subida do jirau da sala de jantar, avistei Melissa conversando com uma garota, que eu julguei ser a tal prima de Trevor. Mesmo ela estando de costas e a certa distância, era possível notar a palidez de sua pele em contraste com os cabelos muito negros curtíssimos. 




Fui arrastado por Trevor até a presença das duas.
– Desculpe interromper essa conversa que parece muuuuuito interessante, mas... Queria apresentar minha querida priminha ao meu brother aqui!
Percebendo o leve toque de sarcasmo em sua frase, Melissa sorriu.
– Ah, Trevor! Você não muda mesmo não é?




Foi nesse momento que a garota se virou e seus olhos encontram os meus. A cor da sua íris era tão clara que eu não saberia precisar se é verde ou azul.
– Olá. – cumprimentou com um sorriso discreto nos lábios generosos. O tom levemente rosado do dorso de seu nariz ressaltava as sardas, lhe outorgando um charme particular arrematado por um minúsculo piercing de brilhante.
A palavra que Trevor usou – delicinha – era um resumo muito incipiente da descrição de sua prima, embora o termo não me saísse da cabeça. O porte magro e elegante de sua figura, lhe concedia uma beleza delicada. Quase frágil.




– Prima, esse é o Yuri, pai daquela princesinha ruiva ali atrás. Um ótimo sujeito, apesar dessa aparência de enterro...
Como se lhe sobrasse simpatia, ela sorriu outra vez.
– Prazer, Yuri. Sou Nina. – até o nome combinava com aquela suavidade. – Não ligue para o que esse cabeçudo diz. Ele não tem modos! – piscou.
– É, eu já deveria estar acostumado... desde a faculdade... – fingi naturalidade.




– Mel, venha comigo. – chamou Trevor. – Quero te mostrar a última obra que fiz na minha cozinha. Um verdadeiro espetáculo em matéria de aproveitamento de espaço!
Melissa fez uma careta, mas acabou o acompanhando, sabendo que a intenção de Trevor era apenas me deixar sozinho com sua prima. Eu não sabia para onde olhar ou onde colocar as mãos.




Para minha sorte, Nina me ajudou.
– Não fique constrangido. Conheço Trevor desde criança... Sei o quanto é destrambelhado, mas também sei que é um doido do bem...
– Obrigado, Nina... Sabe, o maior divertimento dele é me ver de saia justa...
Novamente um sorriso iluminou seu rosto, desta vez com um toque de malícia.
– Não sei se isso é uma má idéia... Aceita uma bebida?




Sem cerimônia, ela nos serviu vinho e conversamos até a governanta anunciar o jantar. Ela me contou que mora em Paris desde a adolescência, formou-se em História, especializou-se em História da Arte e é curadora de um museu, além de possuir sua própria galeria na Cidade Luz.
– Conhece Paris?
– Estive lá uma vez, quando era criança, com meus pais. Não me lembro de muita coisa, a não ser meu pai reclamando de tudo... Da comida, dos serviços... Ele achava os franceses arrogantes, e eu me perguntava se os franceses não achavam o mesmo dele.




Nina soltou uma risada leve e gostosa.
– Então, o convite está feito. Não quero que tenha uma impressão ruim da minha Paris, nem dos meus amigos franceses! Venha nos visitar e prometo te fazer mudar de opinião.
– Ah! De forma nenhuma tenho uma impressão ruim de lá. Mas aceito o convite de bom grado.
Do outro lado da sala Trevor parecia saborear cada diálogo, cada troca de olhares entre nós dois, e eu me senti de volta ao colegial.




Durante o jantar, Nina chamou a atenção para si, com uma conversa que equilibrava assuntos sérios e engraçados sobre as culturas com as quais teve contato. Ariel, que perdera o posto de atração principal, curiosamente se mostrou interessada na novidade, ao invés de apresentar a carranca de ciúme que costumava adotar quando algo assim acontecia.




Reinaldo e Melissa se despediram pouco depois, uma vez que Deco se mostrou bastante sonolento. De maneira inversa, Ariel estava super participativa, perguntando sem parar a respeito das cidades da Europa por onde Nina passeou. Nina por sua vez respondeu pacientemente ao questionário completo, sempre esbanjando simpatia.




Quando olhei o relógio, já era madrugada e passava da hora de Ariel estar na cama.
– Gostei muito de conhecer vocês, Yuri. A sua filha é a coisa mais gracinha! 
– Ah, meu Deus! Ela nem te deixou respirar... Desculpe.
– Imagina! A curiosidade dela é muito parecida com a minha... Sempre desejei conhecer lugares, pessoas, culturas... Você vai ter um pouco de trabalho...
– Acredite, eu já tenho! 



Ela sorriu amável novamente. Eu não sabia direito o que dizer.
– Espero que curta a cidade, pelo menos você está com um ótimo anfitrião, ele sabe onde estão os programas mais divertidos.
– Ah sim, isso quando ele não me largar atrás da primeira piriguete de shorts que passar...
– Bem, estamos de férias também, fale pro Trevor ligar... Tenho certeza que Ariel ia adorar te fazer companhia...




– Só a Ariel? – Perguntou fitando meus olhos. Eu sustentei o olhar e eu me senti compelido a dizer a verdade.
– Eu também...