sexta-feira, 16 de março de 2012

IX – Subentendido Não Atendido


Eu não tinha de fato muita coisa para fazer a não ser algumas roupas e louça para lavar. Sem prestar muita atenção às tarefas, planejei uma programa para quando Ariel chegasse: pediria uma pizza, escolheríamos alguma coisa para assistir e sei que ela cairia no sono lá pela metade do filme. Terminei rápido e me recostei no sofá para ler enquanto esperava.




Pelo vidro da sala vi minha filha subindo as escadas acompanhada de Pedro. Não avistei Léo em nenhum lugar. Levantei-me para abrir a porta e Ariel estava se despedindo com um abraço.
– Tchau, tio Pedro... Brigada!
– De nada, baixinha! Até a próxima!




Ariel tomou o rumo das escadas em direção ao seu quarto.
– Direto para o banho, hein porquinha! Nada de deitar na cama sujinha desse jeito! – Então voltei-me para o Pedro. – Obrigado.
– Não tem de quê. – Ele respondeu, mas não virou-se para ir embora. Eu tentava imaginar porque Léo não tinha vindo com ele.




– Léo teve uma indisposição e eu a deixei em casa antes de vir. – Pedro respondeu a pergunta que eu não fiz. 
– O que houve? Ela está bem?
– Sim, ela está bem, deve ter sido o calor... Bem, de certa forma foi providencial. Tem algo que quero te perguntar... Você tem um tempinho?
– Claro. Você quer entrar? – Convidei consciente de que ele não aceitaria.
– Não, obrigado. Prefiro que seja aqui fora.




Saí para a varanda. A noite havia acabado de cair e o cheiro de maresia me embrulhou o estômago, mas talvez não fosse isso. Pedro olhou para o mar e houve um tempo de silêncio antes que começasse a falar.
– Qual é a sua, Yuri?
Eu não entendi. Não era eu quem deveria achar estranho ele estar ali?
– Como? O que quer dizer?




Pedro se virou para me encarar. Havia sinais de rancor em sua expressão e seus olhos estavam úmidos.
– Ah, por favor! Não me faça explicar o óbvio!
Tudo bem, admito que não estava totalmente dessituado. Mas não ia responder a uma pergunta tão inespecífica. 
– Então seja mais claro com a sua pergunta, Pedro.
– O que você pretende com a Léo? O que espera de sua relação com ela? – ele fez uma pausa. – Está claro agora?





– Não pretendo nada que eu já não tenha. Achei que você sabia disso, levando em consideração todos os anos que se passaram desde que nos conhecemos.
– Eu não confio em você.
– Nem eu espero que confie. Mas sei que você confia na Léo. Qual é o seu medo?
– Eu não estou com medo! – Exclamou quase ofendido.
– Então porque está aqui? E me fazendo essas perguntas?




Pedro soltou um suspiro profundo.
– Sinto que tenho mais do que mereço. Ou do que um dia sonhei ganhar. Sabe, eu acompanhei os relacionamentos da Léo... Ele teve vários namorados e transou com todos eles. Transou até com caras que nem eram seus namorados, eram apenas... “caras”... Eu soube de cada um deles, a maioria ela mesma me contava, de outros eu fui testemunha, contra minha vontade. Não vou dizer que foi agradável, mas eu nunca tive ciúmes de nenhum, porque no fundo eu sabia que nenhum tinha o que nós dois tínhamos. Uma ligação que ia além da atração física, ou do sexo, pura e simplesmente. E colocava minha confiança no fato de que Leandra nunca iria se apaixonar por ninguém, mesmo que nunca fosse minha. Então sempre teríamos algo especial. Até aparecer você.




– Não espero que você acredite em mim, Pedro, mas nunca foi minha intenção. E é óbvio que não estamos juntos, então continuo não entendo o motivo desta conversa.
– Você sabe que estamos voltando pra Enseada, não sabe?
– Soube desta possibilidade, sim...
– Eu consigo suportar a idéia da Léo andando com você pra baixo e pra cima, uma ou duas vezes por ano, como é de costume. Mas não sei vou conseguir conviver com isso o resto da minha vida quando voltarmos a morar aqui.
– Não pode me culpar por isso, eu não tive nada a ver com essa decisão. 




– Eu sei. É só que...
Eu entendi a sua intenção, finalmente.
– Por favor, não me peça, Pedro. Eu não a procuro e você sabe, mas, por favor, não me peça para impedi-la de vir, se é por vontade que ela vem. Eu não tenho tanta força pra pedir isso pra ela. E nem tenho vontade! Não posso fazer isso, sinto muito.
– Tem alguma idéia do quanto é difícil pra mim? Eu sequer tenho coragem para pedir pra ela não vir, porque não quero ter que fazê-la escolher.
– Ela escolheria você.
– Eu não estou tão certo disso.




Ele não esperou outra resposta. Desceu a varanda, entrou no carro e partiu. Eu fiquei ali parado um tempo, tentando digerir aquela conversa. Não tinha dúvidas de que ela escolheria não me ver nunca mais se Pedro assim lhe exigisse, porém ele não parecia inclinado a pressioná-la em nenhuma hipótese. Até que ponto conseguiríamos levar essa situação sem abrir mais feridas?




– PAI! – ouvi o berro de Ariel atrás de mim. Nem a tinha visto chegar. – Estou te chamando há eras! Ficou surdo?! Tá fazendo o quê aqui fora?
– Só... apreciando a paisagem... – respondi.
– Afe! – bufou. – É igual a de ontem e de anteontem!




– Ah, não... Se você reparar direitinho, não é não... – Disse voltando para dentro, e conduzindo Ariel comigo. – Então... eu estava pensando em ver um filme... Que tal?
– Hummm, ótima idéia!
– Quer que eu faça pipoca ou pedimos uma pizza?
– Pipoca, pipoca!!!