Reinaldo e Trevor são meus amigos de décadas. Reinaldo estudou comigo desde o primário e fizemos o mesmo curso na faculdade. Além disso, foi outro idealizador do Pôr do Sol. No entanto, não estava presente em sua inauguração, pois foi transferido para o exterior a trabalho. Agora estava de volta e ativo no projeto. Rey é casado há 10 anos com Melissa e é também pai de André, que regula em idade com a Ariel.
Já Trevor, juntou-se a nós na UFEB, e sinceramente não há explicação para a nossa amizade, assim como não há explicação para ele ter escolhido o curso de Sociologia. É o tipo de sujeito de quem eu jamais me aproximaria por afinidade, e creio que ele só se aproximou de nós por acreditar ser proveitoso o relacionamento com alunos CDFs. No final descobrimos que atrás da personalidade fanfarrona e cafajeste, se escondia um grande sujeito, capaz de arriscar a vida para salvar um amigo.
O mais incrível era perceber que ele até hoje não mudara em nada. Nada mesmo, digo desde o comportamento até o corte de cabelo e o cavanhaque.
– E aí, gayzão! Tá sumido, hein, porra! Quem é que tu tá comendo? Porque pra abandonar os amigos desse jeito só pode ser por causa duma bela xo...
– ...RONA! – completou Reynaldo dando-lhe com o ombro. Obviamente ele nem tinha se importado com a presença de Ariel na sala.
– Vocês são normais?! Sério, pai... você tá precisando renovar suas amizades! – Ariel reclamou revirando os olhos e dando meia volta. – Pelo menos fizeram o favor de não trazer o chatinho do Deco desta vez! Té mais!
– Olha, ele te mandou um beijo, viu! – ainda deu tempo de Reynaldo falar antes que ela virasse o corredor e subisse as escadas.
– É só uma fase... – tentei justificar. – Tudo bem com vocês?
– Tudo... Estava tomando uma cerveja com a rapaziada do trabalho quando esse mala apareceu no boteco. – Reinaldo explicou.
– Então! Tá um dia perfeito pra gente galinhar! Viemos te levar para a luz, seu “emo” filho da puta! – Tão gentil!
– Não é nada disso... – Reinaldo bufou. – “Bora” continuar a cerveja ali na praia. Tá um fim de tarde bonito.
– Eu não sei... Estou com Ariel como vocês podem ver...
– Você não tem uma babá?! Tem uma gostosa que toma conta do Deco, como ela se chama, Rey? É um nome esquisito, mas a guria... hummm, é um filé!
– E tem idade pra ser sua filha! Porra, cara você não muda! – A bronca veio de Reinaldo, que em seguida virou-se para mim. – Acha que Ariel não iria querer vir com a gente?
Acabei convencendo Ariel a levar seus patins para andar no calçadão, enquanto apreciava mais a paisagem do que a conversa. Não pelo Reinaldo, que tinha ainda mais paciência do que eu com o Trevor.
– Sério que você não está mais pegando a Lis, aquela linda? Se importa se eu investir?
Foi Reinaldo quem lhe deu um chute por baixo da mesa.
– Você não tem limites, pelo amor de Deus!
– Não esquenta, playboy... Olha só, tem uma prima minha delicinha que tá chegando da França... Eu só vou apresentar pra você porque tu é devagar que eu sei... Mas a menina é um espetáculo! Imagina ela falando no seu ouvido... “Voulez-vous coucher avec moi, ce soir?” Cara! Mas com todo respeito, hein! – Fingiu seriedade.
– Obrigada, Trevor... Não que eu esteja duvidando das qualidades da sua prima, mas não estou a fim de encarar nenhum relacionamento agora.
– Quem é que falou em relacionamento?! Ele é maluco? – Perguntou para Rey. – Ô doente! Que parte de a menina morar na França você não escutou? Ela vem de férias, vocês saem, se conhecem, se curtem... Depois ela dá tchau! Quer coisa melhor?
– Você jura que não me conhece mesmo depois de todos esses anos, Trevor?
– Porra, manezão! É claro que eu te conheço, caral... – ele não completou ao ver que Ariel passava perto de nós e provavelmente não desejava outro coice de Reinaldo. – Mas é foda ficar acompanhando a decadência de um cara pintoso como você por conta de um amor platônico! Olha bem pro seu aspecto! Que cabelo é esse, “mermão”, se liga! Como se não bastasse, a gata ainda namora um foderosão do futebol... De boa? Shift del, cara!
Após me dar a bronca, Trevor imediatamente mudou de assunto e vítima.
– Ei, tampinha! Vamos com o tio Truta dar um mergulho antes que o sol desapareça de vez.
– Tampinha é sua avó! – Ariel respondeu parecendo irritada, mesmo assim livrou-se rapidamente dos patins e das roupas que cobriam o biquíni, e desceu pela areia montada nas costas de Trevor que a essa altura também já estava só de sunga.
– O que adianta eu pedir pra minha filha não chamá-lo de Truta, se ele mesmo acha engraçado?
– Você pede porque quer, Yuri, sabe que ele deixa Ariel fazer gato e sapato dele! Quando foi diferente?
– Em matéria de deseducação, Trevor é mesmo imbatível.
– Ei, cara! Sabe que não tenho nada de parecido com esse maluco, mas nesse caso nós precisamos concordar que ele tem razão... Você tá um caco, e eu sei que é por causa dela. Sempre começa um mês antes de ela aparecer, e dura mais outro mês depois que ela vai embora. Aí você até que consegue respirar.
– Existe uma possibilidade de ela voltar a morar na cidade... – Deixei escapar baixinho. – Ariel está eufórica com a idéia.
Reinaldo suspirou.
– Mais um motivo, cara! Não dá pra viver assim! Você precisa esquecer essa mulher!
– É, isso eu sei. Eu só preciso descobrir como...












