sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

VI – Falando Francamente


– Então... por que não deu certo com a Lis?
A pergunta de Léo me pegou de surpresa ao final do almoço. As crianças já tinham levantado para brincar no pequeno parquinho do restaurante, e estávamos apenas esperando o maître trazer a conta. 
– O que quer dizer? – Não é que eu não tivesse entendido a pergunta dela, mas eu precisava de tempo para pensar numa resposta.




– Ah, por favor, Yuri... Nem é preciso tanta sensibilidade pra perceber a tensão naquele encontro. E está estampado na cara dela para qualquer um ver que ela ainda é amarradona em você! Ela é tão... linda! Tem um olhar penetrante... E depois... Você acreditou naquela desculpa de fazer malas para não aceitar o convite pro almoço e sair de fininho? Sério, o que houve? Por que terminou?
– Eu... não estava envolvido o bastante.




A minha resposta foi suficiente para ela entender, apesar das palavras exatas não terem sido ditas. 
– Yuri... eu amo você e a Ariel, não tenho dúvida de que sabe disso. Mas às vezes sinto que eu estou... Quero dizer, a minha presença não está facilitando as coisas pra você. Quem sabe se eu me afastasse de vez...
– Não diga isso, Léo! Não se classifique como um obstáculo que preciso transpor na minha vida, tá legal? – Não era só por mim, eu também não sou tão egoísta. Nem poderia suportar a idéia de afastá-la da baixinha. 




A mão de Léo encontrou a minha sobre a mesa. Não era a primeira vez que isso acontecia, mas sempre era uma grata surpresa. Um momento que eu gostaria de imortalizar. Então, eu fazia do único jeito que podia, guardando na memória.
– Não é fácil para mim também. – confessou. – Mas seria pior se eu não voltasse a te ver mais. Eu... gosto de estar com você.
Eu não queria entrar nesse assunto, era doloroso para mim, e deveria ser incômodo para ela. Como ela conseguia lidar com esse conflito?




Não sei dizer em que momento precisamente eu me apaixonei por Leandra, mas parecia ter sido noutra vida. No início houve um período de não aceitação e durante um bom tempo eu tentei me convencer de que tudo não passava de uma inocente atração entre aluna e professor, algo tão comum. Jurava para mim mesmo que era apenas mais uma pessoa a quem eu precisava ajudar.
A intensidade do meu amor parece até ridícula, se considerarmos os poucos momentos que passamos juntos e o único beijo que trocamos. Também não há explicação para esse arrebatamento resistir tanto ao tempo quanto a distância. Então por quê?





Parei o carro em frente à casa do doutor Olívio. Ariel e Lucas dormiam exaustos no banco de trás, e Léo parecia relutante em abrir a porta.
– Está tudo bem?
– Arram... – inspirou. – Você quer entrar? Sabe que o papai gosta um bocado você, né?




– Eu também gosto muito do doutor Olívio e agradeço Léo, mas hoje não... outro dia, pode ser? 
– Se é por causa do Pedro, o carro dele não está aí, ele ainda não voltou.
– Eu não quero acordar a Ariel. Dê um alô ao seu pai, e um beijo em Dora. Noutra oportunidade venho apreciar seu café com bolinhos de chuva.




Eu a acompanhei com o olhar enquanto ela entrava em casa carregando Lucas, e me perguntava como seriam as coisas se eu tivesse agido diferente. Se eu tivesse enfrentado o fracasso do meu casamento antes de conhecê-la. Se eu tivesse assumido minha paixão no primeiro aviso. Se eu tivesse pedido exoneração do meu cargo de professor e tentado conquistar o coração daquela que já era dona do meu? Virei a chave na ignição e parti. Eu nunca teria resposta para aquelas perguntas.




Carreguei Ariel no colo até seu quarto, mas tive que acordá-la para entrar no banho e se trocar. Não poderia colocá-la na cama, imunda do jeito que estava.
– Ei! Baixinha, acorda! Você tá precisando de um banho!
– Tá bom, paaaaaaai! – respondeu sem abrir os olhos.
– To falando sério, filhota... Já enchi a banheira pra você, ok?




Coloquei-a sentada semi-adormecida em cima da privada e morri de pena. Mas não havia outro jeito.
– Paaaaaaaaaaai? – ela me chamou esfregando os olhos, preguiçosa. – Cadê a Léo?
– Deixamos ela e o Lucas em casa...
– Porque não chamou ela pra vir pra cá? Nem tá de noite ainda...
– Não tá, mas você e o Lucas estavam dormindo, ela também devia estar cansada...




Ariel despertou de repente e se colocou de pé.
– Eu não sei de onde você tira essas conclusões! Você por acaso perguntou?
– Existem coisas que não precisam ser faladas! Aliás, já que tocou nesse assunto, precisamos ter uma conversa, mocinha! 
– Aí, ferrou! Se você começou já me chamando de mocinha... Eu não acho que vá gostar dessa conversa!





– Ariel, o que você fez hoje foi muito feio! Não pode constranger as pessoas dessa maneira!
– Mas eu não fiz nada! 
– É claro que você fez! Desde o início, quando sugeriu irmos ao Pôr do Sol, sua intenção foi causar ciúmes na Léo! E com isso, acabou colocando a ela e a Lis numa situação desagradável! Não passou pela sua cabeça que você pode ter magoado a Lis?




– Acho que até a Lis sabe que você gosta da Léo, pai! Se é mentira, porque não namora mais ela?
– Isso não é assunto pra alguém da sua idade! Você não entende! As coisas não acontecem só porque a gente quer, Ariel! 
– Então me ensina! Como é que se faz pro que a gente deseja virar realidade? Por que com certeza não é pedindo pra fada azul!




– Não devemos desejar mais do que o que podemos ter. 
– E quem é que decide o que podemos ou não?! Eu quero falar com algum superior, não sei se estou de acordo com essa lista!
Eu suspirei. Aquela discussão não ia levar a lugar nenhum.
– Vou deixar as coisas mais claras pra você, mocinha! A próxima vez que minha intuição avisar que você está aprontando, eu cancelo os compromissos e ficamos em casa fazendo palavras cruzadas, estamos entendidos? Agora, já pro banho, sua porquinha!




Deixei Ariel em sua banheira, enchi a minha com água morna e espuma e relaxei. Escutei o som da campainha e agradeci ao ouvir Ariel gritando do corredor “Eu atendo!”. Não tinha a intenção de interromper aquele banho por nada nesse mundo. Ficaria ali até minha pele enrugar. 




Não me foi permitido. Ariel invadiu o banheiro sem bater.
– É o tio Rey e o tio Truta! – Ela fez uma careta ao mencionar o segundo nome.
– Já te pedi pra não chamar o Trevor assim.
– Não tenho culpa se ele é caozeiro e combina com esse apelido.
Eu me perguntei onde é que ela aprendia essas coisas.