sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

V – Pôr do Sol


Nunca vou esquecer a primeira vez que levei Léo ao Pôr do Sol. Chegamos junto com o crepúsculo, ligeiramente atrasados para a minha aula de Ciências Sociais. Seu rosto curioso e entusiasmado diante dos contêineres empilhados que comportavam salas de estudo. Sua concentração quase hipnótica enquanto eu falava sem parar. Eu lecionaria para ela enquanto eu vivesse. Uma pena que não tenha sido assim.




Aquele não era o lugar onde ela estudava, não, eu costumava ser seu professor de Sociologia do ciclo básico, em seu primeiro semestre na UFEB. Mas foi por muito pouco tempo. Ela tinha optado por cursar Medicina equivocadamente, porém não havia se dado conta disso ainda. Ficamos muito próximos, nosso envolvimento extraclasse acabou gerando comentários falsos e descabidos, e contra minha vontade, ela cancelou minha matéria. 




Aquele dia ela estava mais atenta do que nunca, mesmo assim a privei de assistir até o fim, por causa de um imprevisto com a recreadora que se ocupava das crianças. Meti a Léo no que parecia uma enrascada e ela se saiu muito melhor do que eu ou até ela mesma poderia prever.  




O Pôr do Sol é um projeto que idealizei ainda durante meus tempos de faculdade. Nem por isso ele deixou de ser um lugar perfeito de fuga. Um local auto-sustentável, erguido e mantido por voluntários num terreno angariado em leilão por uma pechincha. Horta de subsistência, captadores de luz solar, mobiliários e materiais provindos de doações. Para que meu projeto virasse realidade, eu me doava por completo enquanto Sônia sustentava a casa. Negligenciei minha família para realizar um sonho. Uma postura egoísta para uma causa altruísta.




Mal havia parado o carro e Ariel correu para a horta com o pobre Lucas se esforçando para alcançá-la com suas pernas curtas.
– Não mudou nada... – Léo observou ao descer.
– Não... Conhece o ditado, não se mexe em time que está ganhando.
– É, eu bem sei...
Seu olhar se perdeu ao falar, e eu me perguntei qual poderia ser o motivo.




Fiz uma ronda e chequei superficialmente os captadores e geradores e nesse meio tempo as crianças sumiram para os fundos. Havia agora um pequeno canil que servia de abrigo para cães e gatos abandonados, e era para onde Ariel se debandava, sempre que resolvia me acompanhar. Léo pediu para ver a sala das crianças e eu a levei até lá.





– Será que o Pôr do Sol teria uma vaguinha pra mim? – Perguntou contemplando o cubículo que, diferente da parte exterior, havia sofrido algumas mudanças, como pintura, mobília, livros e brinquedos novos. – Pode ser que eu volte pra Enseada.
– Ah! A Ariel comentou algo pela manhã...
– Ela ficou muito feliz com a idéia. – Sorriu ao lembrar, mas em seguida soltou um suspiro desanimado.




– Já você não parece tanto... – Comentei e me arrependi imediatamente, pela expressão que seu rosto adquiriu.
– Ah, não! Não é isso, Yuri! Pelo contrário... Eu adoraria voltar! Acompanhar o crescimento do Luquinha, ficar mais perto do papai e da Dora, da Ariel e de... você... Vou morrer de saudades da cretina da Nick, mas teria o Tatá pra me divertir... – Riu de lado com a própria piada e voltou a ficar séria. – O problema não é voltar, é a forma como as coisas estão sendo conduzidas. Os motivos que estão provocando a nossa mudança.




Ela fez uma pausa e eu tive que fazer um esforço para controlar a curiosidade e não perguntar, não queria parecer ansioso. No entanto, não foi preciso esperar muito. Ainda que um pouco hesitante, ela continuou.
– Eu estou um tanto cansada de todo mundo achar que sabe o que é melhor pra mim. Tomar decisões no meu lugar... Eu gosto de ser mimada, é verdade. Mas acredito que mereço um voto de confiança quanto a ser capaz de definir minha vida. Além do mais... como o Pedro imagina como vou me sentir, vendo ele abrir mão do futuro dele em prol do que acha que seja o meu bem estar?!




A pergunta não era direcionada a mim, isso estava claro, mesmo assim me atrevi a dar uma opinião.
– Você é capaz de qualquer coisa que quiser, Léo. Tenho certeza que Pedro sabe disso. Talvez você também esteja achando que sabe mais sobre o que é melhor para ele do que ele mesmo. Já parou para pensar nisso?
– Desde quando recusar uma proposta internacional e encerrar uma carreira que se encontra em seu auge pode ser considerado o melhor?
– Eu não sei, Léo. Você tentou perguntar pra ele?




– Ele diz que ser jogador de futebol não foi algo que ele escolheu. Que simplesmente aconteceu sem querer, e tomou proporções grandes demais. Que ele quer se dedicar a engenharia, que sempre foi sua escolha e não consegue por que o futebol se ocupa de todo o seu tempo. Mas eu sei que ele adora jogar! Por isso acho que ele só quer se mudar porque acha que eu fico muito sozinha quando ele viaja por aí durante os campeonatos?
– Será que não é você que pensa assim? Quero dizer... Você se sente sozinha, sabe que Pedro percebe essa situação e acha que no fundo ele está fazendo só por você e não por ele também?





Não houve tempo para reflexão nem para resposta. A porta se abriu com um estalo e Ariel surgiu em polvorosa gritando “Olha quem eu achei, papai! Olha! Olha!”. Atrás dela, vinha a bela mulher de pele trigueira, cabelos crespos e traços finos, com quem eu me relacionara há pouco tempo. Lis caminhava com passadas elegantes, carregando no rosto um sorriso e no colo o pequeno Lucas. Eu sorri em resposta.




– Pensei que você estivesse no sítio, curtindo uma folga.
– Eu já devia ter ido, Yuri. Meu sobrinho está me ligando de cinco em cinco minutos, perguntando quando eu vou chegar, mas... sabe como é, vim ver se os bichinhos estavam bem. Eu devia prever que você nunca os abandonaria ao Deus dará!
– Não pretendo deixar Enseada nas férias. Vá tranquila, eu cuido da sua cria... – Brinquei.




– Por falar nisso, esse não é seu, é? – Perguntou colocando Lucas ao chão. 
Eu ri. 
– Você saberia se fosse...
– Não, não, não! – Interrompeu Ariel. – Esse é o Luquinha! Irmão da Léo, lembra? Aquela que eu te falei... De Desiderata!




– Hã... Ah! Oi, Léo! – Uma inesperada gagueira e um certo constrangimento na voz, me fizeram pensar o que Ariel poderia ter comentado com Lis a respeito de Leandra. – Tudo bem? Eu sou a Lis.
– Ah... oi, Lis! Tudo bom... Ariel também me falou sobre você... 
A expressão de contentamento estampada no rosto da baixinha delatava o êxito de seu plano. Mas ela não ia se safar de um belo sermão desta vez.