sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

III – Ariel

– Então... – Quebrei o gelo enquanto preparava a comida. – Como foi o show?
– Ah... – Ela respondeu deixando de lado o galheteiro, que até então lhe servia de distração. – Eu confessei que não gosto muito da música, né? Mas... qualquer programa com Ariel se torna divertido! Ela é tão animada e engraçada! Você precisava ver como ela pulou! E gritava “Justiiiiiiiiiiiiiiiiiin, I love youuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu!” – Gargalhou. – Depois virava pra mim e dizia com a mão no coração: “Eu vou morrer, Léo! Ele é liiiiiiiiiiiindow!”
Ela imitou a baixinha com perfeição e eu achei graça.




Eu soube que era abençoado quando peguei Ariel nos braços pela primeira vez. Naquela época, eu ainda acreditava que tudo estava bem, que tudo daria certo, e nem percebi a expressão preocupada de Sônia ao encarar nossa pequena.




Quando a licença maternidade terminou, Sônia parecia estar trabalhando cada vez mais. Saía muito cedo, sempre chegava depois do jantar, e suas viagens eram incontáveis. Tivemos algumas discussões por conta de sua ausência, mas com o tempo, ela simplesmente passou a ignorar minhas queixas. Minha mulher estava preocupada com o futuro e eu desejava viver intensamente o presente. Não consegui enxergar que ela estava tentando garantir o porvir de Ariel. Tudo que eu via era o seu distanciamento.




Mais uma vez não conseguíamos nos entender. Até quase os três anos, Ariel viveu com um pai idealista e uma mãe workaholic que praticamente não se falavam. Em uma família muda, o desenvolvimento de sua fala ficou comprometido. Por coincidência ou não, Ariel começou a falar após conhecer a “tia Léo”.




– Como estão as coisas em Desiderata, Léo? – Minha pergunta a pegou de surpresa.
– Ah! – Exclamou, tentando ganhar tempo para pensar na melhor forma de responder, isso significava não mencionar o Pedro. – Está tudo bem... Eu me formei no fim do ano passado, você sabe... Mas não temos nada parecido com o Pôr do Sol...
– Porque não começa alguma coisa, então? Aliás! Sabe quem está estagiando com a gente lá agora? A Joelma! Você se lembra dela?




– Como não me lembraria, Yuri?! Como ela está?
– Ótima e também se lembra de você! Bem... se quiser ir até lá um dia destes...
– Eu adoraria... E Ariel? Gosta de te ajudar por lá?
– Não muito... E eu não quero forçar uma barra... Sabe, ainda me culpo em pensar que talvez ela ache que dou mais importância ao Pôr do Sol, do que a ela mesma. Mas não é verdade. É que a Ariel tem tudo! Tudo que qualquer criança do Pôr do Sol desejaria...




– Sim Yuri, você está se incluindo aí?
A pergunta de Léo me surpreendeu. Eu tinha certeza que dedicava praticamente 100% do meu tempo livre a Ariel. Mas quanto será que esse meu tempo livre representava?
– Ela te disse alguma coisa?
– Não... É só que... – parou, subitamente parecendo perder a vontade de falar – Desculpe! Deixa pra lá, eu não tenho o direito de me meter!




– Por favor, Léo! Diga! Mesmo que seja apenas a sua impressão!
– Eu... Você sabe que conversamos a beça, eu e Ariel, não é? – Ela perguntou e eu afirmei com um gesto de cabeça. – Ela não disse nada de forma direta, mas nas entrelinhas... – Léo suspirou. – Acho que ela sente ciúmes das crianças do Pôr do Sol... mas talvez... seja só um ciúme natural, eu não sei! Estou tão afastada! 
– Eu vou conversar com ela. Prometo.




– Pode ser só a idade... Ariel está entrando numa fase difícil... Ela mal falou com o Lucas, tadinho! Revirava os olhos impaciente enquanto ele tentava em vão chamar a atenção dela. Garotos são tão imaturos!
– Dá um desconto, Léo! Seu irmão é três anos mais novo que ela!




Ela me olhou de esguelha e seu sorriso prudente me fez engasgar. Eu queira muito beijá-la. De verdade. Por que mesmo estávamos sozinhos ali na minha cozinha? O assunto tinha morrido e só se escutava o barulho do meu movimento para lá e para cá naquele espaço.




Coloquei a refeição à mesa.
– Posso te servir? – Pisquei. – Temos sopa de legumes! Muuuuuito original!
– Por favor.
Ela fez uma reverência inclinando o rosto, mais graciosa do que eu podia suportar. Quanto mais tempo eu me submeteria a essas provações sem me manifestar?




Soava tão simples: “Olha, Léo, é melhor você não aparecer mais por aqui... Marque com Ariel na praça, ou na casa da mãe dela!”. Seria fácil pedir se eu não gostasse tanto de tê-la por perto.




Agradeci por haver uma gelatina para oferecer de sobremesa e após terminarmos ela sentou-se ao meu lado no sofá da sala.
– Quer procurar um filme? – Ofereci-lhe o controle remoto da TV a cabo.
– Eu vejo o que você escolher...




Comecei a zapear pelos canais até que a imagem mostrou a reprise de um especial antigo, direcionado para o público infantil.
– Nossa! A Ariel adorava esse programa! – Léo e eu exclamamos juntos e sorrimos ao ouvirmos um ao outro.
Nossas mãos se tocaram sem querer.




Acho que devo ter me perdido em seu olhar, pois no instante seguinte seu sorriso havia sumido, e Léo estava voltando o rosto para TV novamente.
– Ela está demorando... Talvez seja melhor eu vir outro dia...
– Tudo bem se quiser ir, Léo. Eu converso com Ariel, ela vai entender.
– Eu não quero ir, Yuri. Eu só acho que eu... devo. O quão errado pode ser isso?




Eu não soube o que responder, e Léo se foi. A mim coube enfrentar a fúria de minha filha quando chegou.
– Eu tenho certeza que foi culpa sua, pai! Certeza!
– Ariel, você dormiu lá esta noite, pode vê-la de novo amanhã! A Léo tem outras coisas para resolver em Enseada, não pode ficar a sua disposição!
– Viu?! Você está desconversando! Qual foi a besteira que você fez?! Ficou olhando para ela com cara de bobo outra vez?




Fiquei sem palavras, estarrecido com a afirmação da baixinha.
– Eu sabia! – Disse um pouco mais alta exaltada. – Porque não diz pra Léo logo de uma vez que gosta dela, papai? Por quê? Eu sei que ela também gosta de você, queria tanto que vocês se casassem! 
As últimas palavras de Ariel já saíram sem fôlego e ela fungou com algumas lágrimas nos olhos, deixando claro para mim que apesar de desejar muito, de alguma forma ela também tinha consciência da impossibilidade daquilo se concretizar.




Eu a puxei para um abraço e afaguei seu cabelo ruivo, herança de sua mãe.
– Você sabe que a tia Léo tem um namorado muito bacana, não sabe? – Ela concordou com um aceno, o rosto escondido em meu pescoço. – Você também sabe que a tia Léo gosta muito dele! Muito mesmo! Que são amigos desde que ela tinha um pouco mais que a sua idade, e vivem felizes em Desiderata. – Ariel concordou novamente. – Então... Não seria justo com eles, não é? Se a tia Léo não gosta do papai para se casar, de nada vai adiantar se falar... E se ela gosta... Bem... Eu só vou bagunçar a vida dela...




Ariel se desvencilhou dos meus braços e caminhou para escada, a fim de subir para seu quarto.
– O tio Pedro é muito legal, papai. Mas você é mais.