sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

II – Sônia

Acordei muito cedo no dia seguinte, com o toque insistente do telefone.
– Bom dia, Yuri. Desculpa, acho que te acordei, queria falar com a Ariel...
Era a voz de Sônia, minha ex-mulher e mãe da minha filha. Temos a guarda compartilhada, mas Ariel passa muito mais tempo com a mãe do que comigo durante o período letivo. Por conta disso acertamos que eu ficaria com ela um tempo maior nas férias. Não conseguia me lembrar se havia um motivo para aquela ligação.




– Ela não está, Sônia. Dormiu na casa do Dr. Salvatore, com a Léo. Elas foram ao show do... err... Não consigo me lembrar o nome, agora... Alguma banda de garotos que usam gel?
– Ah... Tá... Aquela cabecinha de vento deve ter esquecido, então...
– O que é? Eu tenho o telefone de lá, ou você pode tentar o celular da Ariel. Lembra? Foi você mesma quem deu...
– Tínhamos combinado de almoçar juntas e talvez ir ao cinema. Não tem importância...
– Ariel não deve ter esquecido, Sônia. E a Léo disse que a traria agora de manhã. Eu peço pra ela ligar assim que chegar, está bem?




Embora não encontre mais em Sônia a mulher que um dia conheci e pela qual me apaixonei, eu ainda a amo. Acredito que um amor verdadeiro não morre, apenas se transforma. E hoje amo tanto a companheira que ela foi, quanto a amiga que ainda é, e a boa mãe que sempre será.




Léo chegou com Ariel não muito tempo depois e minha filha contou com muita animação todos os detalhes da noite anterior, desde a fila para entrar no estádio, até a pequena festa do pijama, passando é claro pela atração principal: o tão aguardado show de um tal Justin Bieber.




– Papai, a Léo pode almoçar com a gente? – Ela soltou de repente. 
– Pode, baixinha, mas antes ligue para sua mãe. Acho que vocês combinaram um programa hoje não foi? 




– Ah! É! – Suspirou um tanto decepcionada consigo mesma e então se animou novamente ao virar para Léo. – Ei! Então porque você não almoça aqui com o papai?! Eu só vou fazer um lanche e ver um filme, não vou demorar! Por favor, por favor, passou tão rápido!
Léo hesitou:
– Bem, eu...




Tentando não deixá-la constrangida, emendei:
– Ela deve ter compromissos, filha! Está aqui de férias também, lembra?
Subitamente Léo mudou sua expressão, de vacilante a desafiadora divertida, sorrindo com uma de suas sobrancelhas levantada:
– Eu ia dizer que se eu não tiver que cozinhar está perfeito. Descobri que não tenho talento nenhum para isso, e olha que me esforcei bastante.




Eu sei que não deveria, mas fiquei animado em tê-la como companhia. Também não escapei do olhar desconfiado de Sônia. Enquanto acompanhava a ela e a Ariel até seu carro, sentia sua aflição em querer perguntar e só não o fez por não desejar que a baixinha participasse da conversa.
– Juízo. – Limitou-se a aconselhar, e eu senti o peso da palavra comprimir meu estômago.




Quando depois de muito tempo – tanto que não sei precisar quanto –, eu e Sônia finalmente resolvemos conversar sobre nosso casamento, descobrimos ser tarde demais para salvá-lo, não havia mais desejo de fazer dar certo em nenhum de nós dois. 




Eu já me encontrava apaixonado por outra mulher, embora não tivesse sido capaz de pleiteá-la. Ainda assim confessei a Sônia na ocasião, e ela foi mais compreensiva do que eu jamais esperaria. Minha ex-esposa também acompanhou de perto, a minha tristeza e arrependimento por sequer ter tentado.




Sônia refez sua vida, e seguiu em frente. Estava casada e feliz com um executivo, colega de trabalho e muitas vezes companheiro em suas viagens a serviço da multinacional onde é diretora de marketing. John Meyers é estrangeiro, mas mora a tempo suficiente no país para ser fluente em nossa língua. É um homem inteligente e polido, sem, no entanto ser sisudo. Ariel o adora e isso por si só já é um bom motivo para eu também gostar dele.